Bíblia e Exegese

A importância da Hermenêutica Bíblica - Parte 2

31/3/2010

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Tendo falado da necessidade e da importância da hermenêutica, deixe-me mencionar alguns aspectos dos seus princípios fundamentais: 1. o aspecto pneumatológico; 2. o aspecto teológico; 3. o aspecto gramático.

Em primeiro lugar, tem-se o aspecto pneumatológico, ou seja, qual é o papel do Espírito Santo na hermenêutica. É claro que essa pergunta só tem relevância para quem acredita no Espírito Santo. Essa pergunta não tem a menor relevância fora dos círculos evangélicos em que o Espírito Santo é considerado apenas como uma mitologia dos escritores do Novo e do Antigo Testamento, como uma coisa criada por eles, ou simplesmente como uma personificação de uma força que procede de Deus. No entanto, para os protestantes históricos, que levam a Bíblia a sério, o Espírito Santo é a terceira pessoa da trindade, que foi dada pelo Pai à igreja para conduzi-la. O próprio Jesus disse que, quando o Espírito Santo vier, ele haverá de conduzir a toda a verdade e haverá de nos guiar e nos levar ao conhecimento dele. E aqui eu faria uma pergunta para começar, tendo em vista a seguinte situação. Se numa sala eu colocasse dez ateus que não acreditam em Deus, mas que são absolutamente bem versados em grego, hebraico, aramaico, história, arqueologia, sociologia, antropologia, literatura clássica, grego clássico, latim, pais da igreja — eles dominam completamente a Ciência da Religião, mas são ateus — e desse a eles o texto de 1Coríntios 15, quando Paulo diz: “o que farão os que se batizam pelos mortos”, para que eles interpretassem. E se, do mesmo modo, numa sala ao lado, eu colocasse dez irmãos, santos irmãos de Deus, homens de Deus, crentes, de oração, de jejum, mas que mal soubessem ler a Bíblia direito, e fizesse a mesma coisa dando a versão em português e fazendo a mesma pergunta sobre o texto de 1Coríntios 15, referente ao batismo pelos mortos. Quem vocês acham que é o grupo que terá melhor condição de dar a resposta correta?

Grande parte da interpretação e do trabalho da hermenêutica se resume à aplicação simples de regras e independe da espiritualidade da pessoa. É uma questão de aplicação de regras, é uma questão de gramática, é uma questão de sintaxe, é uma questão de comparação com outros textos, é uma questão de bom senso e, em grande parte, independe da espiritualidade. Todavia, ao dizer isso, nós não estamos negando o papel do Espírito Santo na compreensão das Escrituras. Na minha tradição (cristã reformada calvinista), quando nós falamos do papel do Espírito Santo na interpretação, nós entendemos que não é função do Espírito Santo transmitir ao intérprete conhecimento novo, mas fazer com que ele compreenda salvadoramente esse conteúdo. Será que jejum, oração e comunhão com Deus substituem o papel da gramática, do estudo do grego, da história, da arqueologia? Será que uma coisa substitui a outra? A julgar pela qualidade da pregação de alguns irmãos “espirituais”, eu diria que não. Afinal, boa parte da exegese e da interpretação é aplicação de regras, de normas, porque estamos lidando com um texto, e nós precisamos aplicar as regras dessa maneira. Todavia, como hermeneutas cristãos, o Espírito Santo não pode ser deixado de lado quando nós pensamos em nossa tarefa de interpretação do texto. Geralmente dividimos em três etapas a obra do Espírito em comunicar a verdade de Deus.

  • A primeira parte é chamada de revelação — que nós distinguimos das chamadas revelações pessoais, da direção pessoal, que alguns irmãos hoje reivindicam. A revelação a que me refiro aqui é a revelação das grandes verdades de Deus que formaram as Escrituras Sagradas. Nós dizemos que essa revelação é a atuação do Espírito Santo nos autores bíblicos, no ato de registrarem infalivelmente a palavra de Deus.
  • A segunda fase é a iluminação, momento em que o Espírito atua nos leitores esclarecendo as mentes para compreender a verdade revelada nas Escrituras de tal maneira que nós possamos recebê-la de coração e acreditar nela.
  • A terceira fase é a capacitação, momento em que o Espírito Santo capacita os pregadores para comunicar a mensagem que eles entenderam, abraçaram de todo o coração e creram salvadoramente. 
    A atuação iluminadora do Espírito de Deus na interpretação das Escrituras é uma ação frequentemente ignorada por estudiosos comprometidos com o método histórico-crítico e seus pressupostos. Como resultado, o método histórico-crítico produziu pouca coisa que pudesse ser pregada, esvaziou púlpitos e igrejas, e, como vocês sabem, o liberalismo teológico “secou” igrejas protestantes na Europa.

Para os pregadores comprometidos com a autoridade da Escritura, a atuação do Espírito Santo deve ser levada em conta, considerando a natureza da mensagem bíblica e a situação de cegueira espiritual a qual o homem está sujeito. Todo estudo não deve ser feito à revelia da nossa comunhão com Deus.

O segundo aspecto é o teológico que também afeta a pregação e a compreensão. Eu começo com uma declaração que está totalmente pressuposta no livro (A espiral hermenêutica), a de que a hermenêutica é como uma espiral: “não existe interpretação neutra”. É um mito racionalista aquilo que eles chamam de exegese científica e é uma das coisas que eu considero desonesta dos proponentes do método histórico-crítico. Eles querem avançar esse método, considerando-o como um método científico. Com isso, querem dizer que é um método neutro, que exclui os pressupostos transcendentes — como se isso fosse possível.

Já se provou, já se sabe que a neutralidade científica é impossível em todas as áreas do conhecimento. Nós sempre somos guiados a ler a realidade dos textos a partir daquilo que nós cremos, das nossas pressuposições. Daí a importância da Teologia, ninguém pode se livrar da Teologia em hermenêutica.

O papel do pressuposto teológico sempre foi destacar que primeiro “creio e por isso sei”. Em nossos dias, vemos o abandono gradual dessa utopia racionalista de neutralidade e uma nova apreciação pelo envolvimento do intérprete na exegese. Na verdade, a igreja sempre disse isto: se a pessoa não crer, ela não vai entender a mensagem. Se nós tivermos os pressupostos teológicos corretos sobre Deus e as Escrituras, isso irá nos colocar numa posição em que melhor entenderemos a sua mensagem. Isso faz com que cristãos do mundo todo que possuem diferentes horizontes de compreensão, vindos de diferentes culturas, e que passaram por diferentes experiências consigam interpretar a Bíblia da mesma forma, a ponto de pregar a mesma mensagem.

O terceiro é o aspecto gramatical, a importância das línguas originais. Só com o conhecimento do português, nós perderemos eventualmente, determinados efeitos ou pontos que estão no grego, no hebraico e no aramaico que são difíceis de serem transmitidos na tradução. Por exemplo, os tempos do verbo hebraico, ou a qualidade de ação dos verbos gregos, o jogo de palavras que são similares no grego, o paralelismo da poesia hebraica.
Dessa forma, desejo dar alguns conselhos aos pregadores:

  • Primeiro, toda prática precisa de um fundamento teórico sólido. Os que abandonam o estudo sério da Bíblia e vão diretamente para a prática, cedo ou tarde, irão sentir falta de fundamentos teóricos e doutrinários.
  • Segundo, a palavra de Deus é o fundamento da prática missionária, do aconselhamento, do culto, do serviço cristão e, especialmente, da pregação.
  • Terceiro, como pastores e obreiros, deveríamos ser mais profissionais com aquilo que trabalhamos em nosso ministério.

Quero falar ainda, sobre gênero literário dentro do aspecto gramatical. O termo gênero significa tipo que se refere a diferentes formas, figuras de linguagem, estilos, que são empregados na comunicação escrita em geral.  Na Bíblia, nós temos vários gêneros literários. No livro dos Salmos, encontramos salmos especiais de lamento, lamentações comunais, ações de graças, sabedoria; nos evangelhos encontramos narrativa, história de pronunciamento, parábola, declarações de sabedoria, textos messiânicos; nas cartas do Novo Testamento, temos exortação, etc. Pregar a Bíblia com competência é fazer isso com consciência dos gêneros que estão presentes nela.

Para concluir, queremos retomar algumas questões que nos ajudarão a vencer o distanciamento causado pelo aspecto humano. Nada pode vencer esse distanciamento a não ser a aproximação do texto e do contexto originais. E como se faz isso?

  • Faça uma boa leitura de material introdutório aos livros bíblicos, livros de hermenêutica, como A espiral hermenêutica, uma Bíblia interlinear, bons comentários exegéticos e o uso de diferentes traduções.
  • Verifique se você tem os pressupostos corretos, que devem nortear nossa interpretação, como a existência de Deus, a revelação progressiva, a inspiração e a autoridade das Escrituras.

Termino com o lema de Calvino: orare et labutare. Orar, porque a Bíblia é um livro divino. Devemos orar para vencer o distanciamento moral espiritual, que às vezes impedem que cheguemos ao conhecimento verdadeiro da mensagem. E labutar, porque a Bíblia é um livro humano e foi produzida em um determinado contexto por pessoas com uma visão de mundo que já não existe mais. Por isso, devemos usar todos os recursos disponíveis para vencermos esse distanciamento.

 

  • 2 COMENTÁRIO(S)

Marilene Salgado Cunha | Belo Horizonte/MG | 19/08/2011 19:38:20
Maravilha de texto, fácil de entender e de grande ajuda para nosso conhecimento teológico. Obrigada por esse artigo, pois ajudou muito em minha tarefa. Que Deus continue abençoando.
Marcos Paulo , Ir. P)aulo | Nova Iguaçu/Rj | 08/09/2012 22:57:00
agradecidamente estou pelo ensinos, embora não gostar de se preciptar nesse aspecto de estudar a parte morfológica, ou seja gramática da teologia. mas obrigado autor pastor Nicodemus.

 

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  • AUTOR

Augustus Nicodemus

Augustus Nicodemus

É paraibano e pastor presbiteriano. É bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte (Recife), mestre em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom (África do Sul) e doutor em Interpretação Bíblica pelo Westminster Theological Seminary (EUA), com estudos no Seminário Reformado de Kampen (Holanda). Foi professor e diretor do Seminário Presbiteriano do Norte (1985-1991), professor de exegese do Seminário JMC em São Paulo, professor de Novo Testamento do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (1995-2001), pastor da Primeira Igreja Presbiteriana do Recife (1989-1991) e pastor da Igreja Evangélica Suiça de São Paulo (1995-2001). Atualmente é chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro. É autor de vários livros, entre eles O que você precisa saber sobre batalha espiritual (CEP), O culto espíritual (CEP), A Bíblia e Sua Familia (CEP) e A Bíblia e Seus Intérpretes (CEP). É casado com Minka Schalkwijk e tem quatro filhos Hendrika, Samuel, David e Anna.

 

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