Atualidades

Varão e varoa, estamos no século XXI!

9/9/2010

4 Comentário(s)

Imprimir artigo

 

"Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir" (Lc 15.1)

É inegável que o cristianismo contemporâneo vive a crise da relevância. Os novos críticos do cristianismo não se cansam de dizer que o discurso dos cristãos cheira naftalina, é tão antiquado, fora de moda e irrelevante. Para ilustrar esse fato, lembro-me de que, há poucos dias, um colega da USP, sabendo que sou cristão, se aproximou de mim e, sem rodeios, perguntou-me: “Por que muitos evangélicos falam tão esquisito? Eles chamam uns aos outros de varão e varoa! Abusam dos arcaísmos! Usam expressões tão ultrapassadas que às vezes me sinto nos dias de Olavo Bilac!” Dureza, não?! Expliquei que muitas das versões bíblicas que as pessoas leem são muito antigas, e, por esse motivo, acabam trazendo o vocabulário delas para o dia a dia. “Que bizarro!”, disse meu colega. E incomodado com isso, perguntei: “Por que bizarro?”. Ele prontamente me respondeu: “Porque isso assusta qualquer um! É uma linguagem muito distante da realidade!”. Nessa hora, infelizmente, tive que concordar com ele. Nossa linguagem, às vezes, é tão descontextualizada que, em vez de atrair, assusta os publicanos e pecadores de nossos dias.

O que acho mais interessante no texto de Lucas 15 é o fato de que os publicanos e pecadores não se aproximaram de Jesus para pedir um milagre, uma bênção. Pelo contrário, se aproximaram dele só para ouvi-lo. Isso aconteceu porque a pregação de Jesus era empolgante, o Mestre era verdadeiramente relevante. Veja a bela imagem que Lucas nos oferece: o Filho de Deus, sentado à mesa com publicanos e pecadores, completamente atraídos pelo seu discurso. Ou seja, Lucas mostrou que Jesus era interessante não apenas por causa dos milagres que fazia, mas principalmente por causa de seu pensamento, de sua capacidade de ler o coração dos homens e de expor os desígnios de Deus, com ousadia, sabedoria e relevância.

Ouvindo algumas pregações aqui e acolá, em canais de TV e em igrejas, percebo que muitos dos discursos e pregações de nossos dias estão muito distantes de ser comparados às pregações empolgantes de Jesus. Acredito que uma das razões seja a nossa incapacidade de ler nosso tempo, agravada pela pobreza de nossa leitura dos desígnios de Deus, expressos nas Escrituras. Quando digo “ler nosso tempo”, digo “ler as pessoas de nossos dias”. Jesus entendia o homem de seu tempo como ninguém. Ele compreendia as questões que o homem de seu tempo fazia e, por isso, respondia de forma relevante aos publicanos e pecadores de seu tempo.

Em contrapartida, nossa leitura do varão hodierno — ops! do homem de hoje! — é vergonhosa. Não entendemos seus pensamentos, não entendemos suas questões. Às vezes, tenho a impressão de que a maioria de nós está falando para homens do século XIX, e não só com uma linguagem oitocentista, mas — o que é pior ainda — usando uma lógica e um tipo de reflexão e postura intelectual que é típico do universo espiritual oitocentista.

A verdade é que alguns sermões de hoje se tornam irrelevantes porque apenas respondem às perguntas que o homem do século XIX fazia. São sermões tão distantes do século XXI, que dão sono! Cá para nós, às vezes me pergunto se isso acontece por causa do delay de publicações das obras teológicas oitocentistas, que são publicadas hoje em dia como “grandes lançamentos do ano”. Sinceramente, não sei. O que sei é que, se queremos proclamar o reino de Deus para o nosso tempo, temos de nos livrar de nossas lentes oitocentistas. Precisamos ler o homem de nossos dias, com lentes apropriadas para o século XXI.

O homem de hoje é um homem sem transcendente, ou melhor, um homem deslumbrado com o imanente, que passa a ser tomado como se fosse transcendente. Em outras palavras, alguém que trocou a adoração a Deus pela veneração ao carro do ano, ao último modelo de celular, de notebook, de TV e por aí vai. Por isso, as megaigrejas estão tão cheias. E garanto que não é pela relevância do discurso, mas pela exploração da angústia do homem moderno. Este vai à igreja não mais para simplesmente adorar, mas para clamar a Deus por um carro novo, uma casa maior, mais dinheiro, mais sucesso, mais poder. A tara por essas bênçãos materiais mostra o quanto somos niilistas, vazios, sem um sentido ulterior para vida, que seja superior a tudo o que está preso ao tempo e ao espaço.

Não precisamos de sermões que alimentem nossa angústia niilista. Precisamos de sermões que nos conscientizem de nossa real situação. Sermões que revelem as novas faces de nossas depravações e desesperos. Sermões que sejam resultado de uma exegese bíblica cuidadosa e contextualizada, e, ao mesmo tempo, conscientes de que nossa inteligência e compreensão devem ser submetidas à luz do Espírito, o único que nos permite ver o Jesus supracultural, supratemporal, preexistente, Filho de Deus, Senhor do tempo, da história, da terra e do céu. Sermões que nos sirvam como espelhos para mostrar a face sofrida e angustiada de nosso coração, tão longe da busca pelo transcendente e tão entregue à busca exacerbada por bens transitórios. Só assim haverá conversão genuína, adoração verdadeira, pregação relevante. Só assim publicanos e pecadores de nosso tempo deixarão de se assustar com esse nosso esquisito jeito oitocentista de ser, e se aproximarão de nós para conhecer o Jesus do século XXI, que, paradoxalmente, em nada deve ser menos atraente do que o Jesus do século I.

 

  • 4 COMENTÁRIO(S)

Vanessa Pinha | Belo Horizonte/MG | 01/06/2012 00:08:57
Excelentes, bem colocadas e muito pertinentes suas obervações. Tenho percebido que nos dias atuais, e principalmente no meio acadêmico, a postura e o discurso arcaicos de alguns cristãos acabam obtendo um resulto contrário. Até mesmo expressões como Jesus te ama ou quando você conhecer Jesus sua vida vai mudar já não fazem mais sentido algum para os publicanos e pecadores, pois de tão desgastadas se esvaziaram de sentido (apesar de serem proposições verdadeiras). Além do vocabulário, acredito que o próprio discurso e a estratégia de pregação devem se adequar ao perfil dos publicanos e pecadores de nosso tempo. E isso não quer dizer os ensinamentos bíblicos estão em dissonância com os tempos atuais e nem que devemos distorcer a palavra de Deus (falo em adequação de linguagem e não de conteúdo). O problema não está na mensagem em si, mas sim na forma como ela é transmitida. Parabéns pelo texto!
SÉRVIO TÚLIO XAVIER DANTAS | Munhoz/MG | 04/06/2012 20:21:45
Olá Pr. Jonas! Muito interessante seu comentário e pertinente, pois temos observado que muitos cristãos insistem em uma linguagem ultrapassada e em desconexo com o século em que vive. Se faz necessário ao meu ver, uma aproximação clara, objetiva e precisa por parte de nós cristãos, um alinguagem contextualizada com relevância bíblica e teológica, a fim de que possamos aproximar os "publicanos" da Palavra de Deus. Tenho grande admiração pelo seu trabalho e sou um leitor assíduo dos seus artigos publicados nas Edições Vida Nova. Que Deus nos ajude! Pr. Sérvio Túlio - Igreja Betel Brasileiro
Felipe Epprecht Douverny | São Bernardo do Campo/SP | 01/02/2013 07:48:11
Excelente!
Carlos Roberto | Campinas/Sã | 19/05/2013 21:59:50
às vezes eu acho que não é somente o tipo de linguagem que se usa nas pregações,evangelismos ou em conversas sociais,mas o modo como se expressa,a abordagem.Eu conheço pessoas que foram ganhas com a mesma linguagem que esse seu amigo ficou incomodado.Acredito que não se deve generalizar as coisas,só porque algumas pessoas se incomodam com o tipo de linguajar de crentes.

 

  • DEIXE SEU COMENTÁRIO

[máximo 1000 caracteres]

Você já digitou: 0 caracteres.

 

  • AUTOR

Jonas Madureira

Jonas Madureira

É bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro em São Paulo; bacharel, mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutorando em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Professor Titular de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea e Filosofia do Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro e do Seminário Teológico Bethesda. Autor do livro "Filosofia" do Curso Vida Nova de Teologia Básica publicado por Edições Vida Nova. Em 2005, recebeu da PUC-SP a premiação de Menção Honrosa, na área de Filosofia, pelo estudo que apresentou sobre a doutrina do conhecimento negativo de Deus em Tomás de Aquino.

 

  • VEJA MAIS ARTIGOS DESTE ARTICULISTA