Devocional

Uma igreja atual depois de dois mil anos

10/11/2010 10:24:35

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Você se lembra do mercadinho do final da rua onde fazíamos compras e ao chegarmos ao caixa o dono do estabelecimento pegava um caderno e marcava nosso nome para pagarmos a conta no final do mês? Naquela época não havia cartão de crédito ou débito e nem grandes redes de supermercados. É basicamente a mesma época em que o dono da farmácia fazia o papel de médico da família e utilizávamos as cartas escritas à mão como principal meio de comunicação. Não havia caixas eletrônicos em todas as esquinas e nem telefone celular. Os televisores eram preto e branco e os rádios com freqüência AM ocupavam a mesa da cozinha ou da sala. Não havia internet, TV à cabo, Ultrassom, forno microondas, metrô e viajar de avião era algo apenas para uma minoria muito privilegiada. Poucos tinham automóvel e para quem morava em São Paulo dar um mergulho no Rio Tietê, em plena área urbana, não era algo estranho. Assaltos existiam, mas eram raros. Sentávamos em bancos de praça e conversávamos com os amigos até altas horas da noite sem medo da violência urbana. Dormíamos de janela aberta na época do verão e a corrida de São Silvestre acontecia à meia noite do dia 31 de dezembro de cada ano. Os carros tinham carburador e não injeção eletrônica, não havia GPS e nem versões flex. Os relógios eram à corda, não havia fibra ótica, comunicação por satélites e nem computadores. Em vez de máquinas de xérox usava-se mimeógrafo. As modernas tomografias computadorizadas se resumiam a uma radiografia sem qualquer precisão. Os discos de vinil ocupavam as prateleiras e nossos veículos tinham toca-fitas em vez de reprodutores de cd.

Poderíamos aumentar a lista, mas ela já é o suficiente para percebermos que muitas invenções vieram alterar nosso dia a dia. Elas trouxeram uma série de novos comportamentos e transformaram nossa sociedade. Uma pequena pergunta é importante aqui: em quantos anos todas essas mudanças aconteceram? A resposta é quase inacreditável: pouco mais de cem anos. Quando pensamos que há 50 anos não existia uma máquina de xérox ou que o sistema operacional Windows foi criado em 1993 percebemos que estamos em uma corrida frenética de mudanças. Isso sem falar nas transformações sociais que experimentamos. Lembrar que nosso país alcançou sua independência apenas no início no século XIX ou que as eleições diretas tem apenas 25 anos mostram que nossa sociedade viveu grandes alterações em período curto. Está correta a frase de José Ernesto Bologna quando diz que “somos um povo sempre novo, pois vivemos mudanças à cada instante” (Mudanças e Velocidade. Site: Seres Humanos de Negócios).

O mais interessante em tudo isso é que antes de todas as mudanças citadas já existia a Igreja de Jesus Cristo. Ela viu todas as mudanças e sobreviveu a todas as inovações. Estava presente antes e depois do muro do Berlim ou quando Sigmund Freud deu início à Psicanálise. Sobreviveu aos Romanos e suas perseguições e viu Lutero afixar suas 95 testes na porta da Catedral de Wittenberg na Alemanha. A Igreja de Cristo sobreviveu à tudo pois tinha uma promessa do próprio Jesus: “As portas do Inferno não prevalecerão sobre a Igreja” (Mateus 16:18). Ainda que esse mundo esteja debaixo dos poderes do maligno (1 João 5:19) podemos seguir firmes em nossa fé sabendo que como Igreja de Jesus teremos sempre o livramento e a provisão. Isso não nos isenta, porém, de sofrermos com as mudanças e termos que nos adaptar a muitas delas, verificando maneiras atuais de vivermos os princípios Bíblicos e as verdades eternas.

Em seu período de existência a Igreja mudou radicalmente. Ainda no Novo Testamento ela saiu de um modelo essencialmente judaico e ganhou novas formas com a chegada dos gentios. Em meio às diferentes épocas ela foi redescobrindo suas metodologias e continuou sempre atual em cada geração. A diferença de nosso tempo em relação à toda a história já vivida é que agora as mudanças são muito mais rápidas e com certeza terão uma velocidade ainda maior nos próximos anos. Enquanto gerações inteiras estudavam as mudanças que iam acontecendo até tomarem alguma decisão hoje não podemos mais demorar tanto. Uma única geração enfrenta várias e várias mudanças e é obrigada a dar uma resposta atual e bíblica a um contexto totalmente novo.

Nós estamos vivendo exatamente esse tempo. O que chamamos de Pós-modernidade poderia ser resumido na frase ‘época de grandes e rápidas mudanças.’ Como servos de Cristo e sujeitos à sua direção precisamos mais do que nunca acentuar nossa comunhão com Ele para que tenhamos o discernimento necessário na tomada de decisões que não podem esperar. As mudanças trazem desafios, oportunidades e apontam para novas chances de evangelização. É aqui que vale lembrar que infelizmente os ‘filhos das trevas’ tem sido mais rápidos e eficazes do que nós, os ‘filhos da luz’ (Lucas 16:8). Em meio às mudanças desse tempo o inimigo de nossas almas trabalha incansavelmente aproveitando tudo para levar pessoas para o caminho da perdição. Nós não podemos ficar parados. Não temos o direito de deixar grandes oportunidades passar sem o despertamento necessário para agir e aproveitar cada oportunidade com a evangelização e edificação de vidas.

A Igreja precisa continuar a ser atual nesse tempo. Relevante. Contagiante. Sobre isso Frank Brown declarou: “à medida que uma religião se desenvolve, ela precisa se orientar tanto em relação à cultura de suas origens quanto em relação às culturas contemporâneas com as quais interage – e cada uma dessas culturas apresenta possibilidades alternativas que a religião pode rejeitar, modificar ou acabar adotando” (Christian Theology’s Dialogue with Culture, página 314). Cabe a nós avaliarmos as possibilidades alternativas e verificar como podemos interagir e viver um Cristianismo autêntico em pleno século XXI.

Há uma expressão latina que diz: tempora mutantur et nos, mutamur in illis (‘Os tempos mudam e nós mudamos com eles’). De fato nós mudamos com o tempo. Em alguns casos nem percebemos as mudanças. A Igreja também muda pois é formada por nós que mudamos. A questão a ser analisada agora é se tais mudanças são cabíveis a nós crentes e se podemos utilizá-las para ganhar vidas para Jesus e edificar os que já o aceitaram como salvador. Esse trabalho não é fácil mas com certeza é indispensável. Que Deus nos dê a sabedoria para entendermos as mudanças e mostrarmos que a Igreja de Jesus continua atual hoje como foi na época do Novo Testamento.

Desse que pede sabedoria à Deus para entender os tempos.

 

  • 2 COMENTÁRIO(S)

GONÇALO FONTES | SÃO GONÇALO/RJ | 12/04/2013 19:46:08
Maravilhoso texto. Parabéns caro irmão Guilherme. Eu louvo a Deus pela grande edificação que me trouxe essa palavra. Que o Deus de Israel continue lhe abençoando rica e abundantemente.
Daniel de Souza | Sorocaba/SP | 18/09/2013 21:12:08
A igreja de Cristo atualmente evangeliza através da internet, missionários viajando de avião, usando celular, etc., mas que dizer quando ela usa jiu-jitsu para evangelizar pessoas fora da igreja? A minha igreja já entrou nessa. Será que se justificam em Gênesis 32. 22-32?

 

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  • AUTOR

Guilherme Ávilla Gimenez

Guilherme Ávilla Gimenez

Teólogo, bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil (especialização em Ministério Pastoral) e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Cursou especialização em Ministério Pastoral no Dallas Theological Seminary. É professor na área de Teologia Prática na Faculdade Teológica Batista de São Paulo e pastor titular da Igreja Batista Betel em São Paulo. Sua dissertação de Mestrado tratou da Crise no Ministério Pastoral e se transformou em conferências e palestras apresentadas em várias Igrejas e Seminários Teológicos.

 

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