Devocional

Igreja como plenitude de Cristo que preenche tudo em todas as coisas

15/8/2011 10:03:28

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Palavra de Deus! Essa Palavra só pode advir do Espírito. Refiro-me a Efésios 1.23. Nesse texto lemos que a Igreja é o Corpo de Cristo, “a plenitude daquele que preenche tudo em todas as coisas” (Efésios 1.23). Essa é uma das mais surpreendentes declarações do Novo Testamento sobre a identidade da Igreja. Diga-se de passagem, a epístola de Paulo aos Efésios é considerada um verdadeiro tratado eclesiológico, pois descreve com muita propriedade o caráter da Igreja de Cristo. E diga-se também que a declaração de 1.23 precisa ser compreendida à luz do contexto da carta mencionada.

Em Ef 1.3-14, lê-se um belo hino, que descreve a salvação efetivada por Deus através de Cristo Jesus. Já temos sido abençoados com toda sorte de bênçãos espirituais, já estamos numa esfera celestial em Cristo. Fomos escolhidos antes da fundação do mundo; fomos adotados por meio de Jesus; recebemos o perdão dos nossos pecados, segundo a riqueza da graça de Deus. Não somente nós, mas todo Universo será finalmente redimido por Jesus, pois nele serão convergidas “todas as coisas, tanto as que estão no céu como as que estão na terra” (1.10; veja 4.10 e Romanos 8.21).

Em Jesus fomos feitos herança e recebemos a herança eterna, e fomos chamados para sermos para o louvor da sua glória. Ouvimos a palavra da verdade, cremos em Jesus, e fomos selados com o Espírito Santo da promessa, que é penhor da nossa herança; ou seja, a presença atual do Espírito em nós é a garantia de que um dia gozaremos plenamente da nossa herança, embora no presente já desfrutemos das “primícias do Espírito”.

A partir do v.15, lemos uma oração de Paulo, que se estende até o v.23. Nessa oração, o apóstolo ressalta a importância de os crentes conhecerem seu chamado (v.18), e conscientiza-os sobre a suprema grandeza do poder de Deus em nós, pois, o mesmo poder que atuou em Jesus, ressuscitando-o dentre os mortos, também agora atua nos crentes (1.19-20). Nós, cristãos, já fomos ressuscitados espiritualmente. Esta declaração é desenvolvida em 2.1-1: estávamos mortos em nossos pecados e delitos; éramos filhos da ira; mas Deus, que é rico em misericórdia, e pelo seu imenso amor, nos deu vida juntamente com Cristo, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus. Assim, somos salvos pela graça, mediante a fé; e tal salvação não vem de nós mesmos, é um dom de Deus; não vem das obras. E, no v.10, há uma declaração fantástica: somos a nova criação de Deus, criados para as boas obras, “previamente preparadas por Deus para que andássemos nelas”. Não somos salvos pelas boas obras. Mas somos salvos para as boas obras.

Quem negligencia essa declaração dificilmente entenderá a epístola aos Efésios, terá uma compreensão equivocada de Igreja, e,  obviamente, não entenderá a declaração de Paulo em 1.23: a Igreja é a plenitude de Cristo que preenche tudo em todas as coisas.

Que relação há entre 1.23 e 2.10? O que tem haver a plenitude de Cristo com a nova criação?
Antes de responder, detenhamo-nos um pouco mais em outras passagens de Efésios, especificamente em 2.11-22 e 3.1-21. Afinal, se em 1.3-14 e 2.1-9 o texto bíblico descreve nossa nova relação com Deus, a partir de 2.11 ele descreve a nova relação com o próximo. Em 2.11-22, Paulo afirma que judeus e gentios, dois setores raciais bastante distintos, agora foram irmanados pelo sangue de Cristo. A obra de Jesus derrubou a parede da separação entre judeus e gentios, “pois ele é a nossa paz” (v.14). De ambos os povos fez um só povo. A cruz reconcilia o homem com Deus, mas também reconcilia os homens entre si. Jesus traz paz à terra entre os homens de boa vontade! Em 3.1-13, o texto continua o assunto de 2.11-22. O ‘mistério’ oculto em gerações passadas agora foi revelado em Jesus. Que mistério? A união entre judeus e gentios num mesmo corpo. Quem faz essa obra? O Deus “que tudo criou” (3.9). Esta é a nova criação de Deus: seres humanos convivendo pacificamente entre si, num mesmo Corpo. E assim, somos desafiados a entender o amor de Cristo em todas as suas dimensões (3.17-18), para que sejamos preenchidos “até a plenitude de Deus” (3.19).

Portanto, a obra de Cristo diz respeito à nova criação, como recriação de pessoas e como recriação de espaços nos quais essas pessoas vivem. Na medida em que essa nova humanidade encarna Cristo, ela vai sendo preenchida com a plenitude de Deus. E, na medida em que essa nova humanidade é preenchida pela plenitude de Deus, ela vai preenchendo tudo e todas as coisas.

Em Ef 1.23, o texto refere-se à plenitude da natureza. Em 2.10, refere-se à nova criação. A Igreja representa um mundo novo. Ela é nova criação em Cristo. A Igreja enche todo o mundo caído. Ela é a plenitude de Cristo. Os cristãos são a nova humanidade representante de um mundo recriado, um mundo novo. A Igreja é a plenitude de Cristo, que preenche tudo em todas as coisas, na medida em que, sob a autoridade de Cristo, a Cabeça, impulsionada pela obra de Cristo nela mesma, participa da regeneração integral do Universo.

Concluindo...
Se o mundo vai de mal a pior, se as crianças ainda continuam sendo assassinadas, se o pobre ainda tem fome, se a violência ainda impera, se o mundo parece não ter solução, se a natureza continua sendo depredada...é porque a Igreja não tem sido Corpo de Cristo, é porque a Igreja não tem sido a plenitude daquele que preenche tudo em todas as coisas. Antes de ser Corpo, lamentavelmente a igreja evangélica é um gueto religioso meramente preocupado na manutenção de suas estruturas institucionais. Mas eu acredito. Eu acredito que ainda seremos efetivamente o Corpo de Cristo nesta terra.

 

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Luciano R. Peterlevitz

Luciano R. Peterlevitz

Bacharel em Teologia (FTBC e FATEO/UMESP); Mestre e Doutor em Ciências da Religião, na área de Literatura e Religião no Mundo Bíblico, pela Universidade Metodista de São Paulo. Coordenador Acadêmico da Faculdade Teológica Batista de Campinas, onde também leciona Hebraico, Antigo Testamento e Hermenêutica Bíblica nos cursos de Bacharelado em Teologia e Pós-graduação em Exposição Bíblica.

 

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