Ministério

Teodoro de Mopsuéstia e a pregação expositiva na patrística - parte 2

29/02/2012 14:19:11

0 Comentário(s)

Imprimir artigo

 

“Quando a Palavra de Deus é negligenciada, a religião pura e verdadeira colapsa.
Quando ela colapsa ninguém pode, nem será salvo”
Erasmus Sarcerius (1501-1559)

Neste artigo, continuaremos a analisar o método de interpretação das Escrituras que tem sido um marco para todo aquele que deseja caminhar de modo seguro e honesto nas páginas sagradas. Em um tempo quando a Bíblia é tratada como apenas mais um livro, quando a inerrância, a inspiração e a infalibilidade são questionadas, vale a pena voltar um pouco aos primeiros anos do Cristianismo, e vermos como se dava a interpretação e a exposição das Escrituras na Patrística.

Como afirmei em meu último artigo (leia-o aqui), iniciarei esta segunda parte tratando de um princípio de interpretação usado amplamente na patrística: a Theoria. Após isto, concluiremos com algumas reflexões sobre como seria saudável um retorno ao Pais na questão da Exposição Bíblica.

A Theoria
Teodoro e os demais escritores antioquinos entendiam a theoria como o verdadeiro significado do texto.1  Segundo Lopes, este conceito desenvolveu-se em Antioquia e designava o “estado mental dos profetas que recebiam as visões, em oposição à alegoria”. 2 Neste estado mental, tais profetas podiam ver as coisas que ainda não haviam acontecido por meio das circunstâncias vividas em seus dias. Eles podiam tirar de suas visões várias lições, tanto contemporâneas quanto previsões e cumprimentos futuros. Quando os antioquinos encontravam o sentido normal e histórico das profecias no Antigo Testamento, eles davam ao mesmo o nome de theoria. Embora, fazendo isso, não deixassem de reconhecer tipos, sombras, e de buscarem um sentido espiritual e mais profundo em tais passagens. 3

Deodoro de Tarso
De acordo com Hall, Deodoro de Tarso foi um dos primeiro a usar a expressão “theoria” ou “contemplação” para dar um significado às passagens do Antigo Testamento de modo diferente da abordagem alegórica dos alexandrinos.4  Joseph Trigg, em Biblical Interpretation (Interpretação Bíblica), define o pensamento de Diodoro sobre theoria da seguinte forma:

É uma disposição interpretativa e um artifício que identifica o sentido espiritual de um texto, que tanto é inerente à estrutura histórica como também leva a mente do leitor da Escritura a níveis mais altos de contemplação... Theoria era a disposição da mente, o discernimento, que capacitava os profetas a receberem suas visões em primeira mão. Assim, ela foi tanto a condição necessária para a Escritura como sua mais elevada interpretação. Deodoro pôde, então, reconhecer a interpretação tipológica do Antigo Testamento, que era, havia muito, um padrão de leitura na igreja sem aceitação de uma leitura alegórica.5

A theoria sempre se encontrou sujeita a história, ao relato fiel dos acontecimentos passados. Deodoro, evitando alegorizar as Escrituras, fazia três distinções na interpretação de um texto. Primeiro se constatava a história em si, o evento histórico com seu contexto, personagens e palavras. Em segundo lugar, se constatava o sentido normal da passagem em estudo. E, em terceiro lugar, se constatava a theoria, ou seja, o sentido mais elevado ou espiritual de um texto. A theoria só era alcançada após uma cuidadosa exegese do sentido histórico e normal da passagem bíblica. 6

Teodoro de Mopsuéstia
Kelly traça um paralelo enorme entre Deodoro e Teodoro de Mopsuéstia. De acordo com Kelly,

Deodoro e Teodoro foram muito rigorosos na aplicação de seus princípios. Isso resultou na eliminação de toda exegese puramente alegórica ou simbólica do Antigo Testamento e do Novo e na limitação drástica dos elementos tanto estritamente proféticos quanto tipológicos do Antigo.7

De acordo com Kelly, Teodoro também entendia a theoria como a verdadeira chave para compreender a mensagem espiritual da Bíblia. E, para que ela funcionasse, era necessário que se observasse as três seguintes coisas:

(a) Que não se eliminasse o sentido literal da narrativa sagrada; (b) Que houvesse uma correspondência histórica real entre o fato histórico e o objeto espiritual posteriormente definido; e (c) Que esses objetos fossem apreendido juntos, embora, claro, de diferentes maneiras.

Segundo Lopes, Teodoro e os demais da Escola de Antioquia chegaram à conclusão de que os profetas sabiam exatamente todo o significado e as implicações de tudo o que diziam. Eles estavam cheios “do sensus plenior de suas palavras”.8  Lopes conclui assim: “Os antioquinos diziam que todo sentido legítimo e possível já era conhecido do profeta. Era isso que chamavam de theoria”. 9

Neste espírito da busca pela theoria, Teodoro e os antioquinos buscavam a historicidade por trás dos fatos descritos nas Escrituras. Embora reconhecessem as tipologias do Antigo Testamento, não eliminavam a busca pela compreensão do seu contexto. Entendiam cada texto afirmando sua historicidade e, após isso, buscavam o sentido espiritual do mesmo. É isso que Teodoro fez quando buscou compreender a narrativa da Epístola de Paulo aos Gálatas, no capítulo quatro. Após Teodoro comentar a “loucura” feita pelos alegoristas com o texto bíblico citado,10  ele o explica da seguinte maneira:

Ele menciona Hagar e Sara. Uma delas teve uma criança no curso normal da natureza, enquanto a outra foi incapaz de carregar uma criança, mas teve Isaque pela graça; e, das duas, a criança nascida pelo caminho da graça provou ser altamente mais estimada. Ele as compara mostrando que agora, também, a justificação por Cristo é muito melhor do que a outra, pelo fato de ser alcançada por graça. Ele relaciona a que tem um filho dentro do curso da natureza à justificação que é de acordo com a lei e faz daquela que tem um filho contra todas as esperanças, correspondente àquela justificação que é de acordo com a graça. Isto, porque uma vida de acordo com a lei é apropriada ao presente, enquanto que, para aqueles que têm sido de uma vez por todas nascidos de novo e que já foram libertos da corrupção, a circuncisão, as ofertas de sacrifícios e não mencionar a observação de dias especiais, são tudo irrelevantes.

Há coisas que acontecem no curso da natureza – por exemplo, a entrada nesta vida por meio de nascimento – onde a vida, de acordo com a lei, ainda parece ter um lugar. Mas, há também um nascimento da graça, pelo qual todos nascem novamente e nascem rumo ao uma vida futura na qual a justificação de Cristo é completamente implementada. Então, para representar a justificação de acordo com a lei ele tomou aquela que teve uma criança na ordem da natureza, pelo fato da lei ter um papel controlador naqueles que nascerem nesta vida, nascidos de acordo com a natureza. Para representar a justificação de acordo com Cristo, ele tomou aquela que teve um filho pela graça, já que isso é cumprido na vida daqueles que nasceram de novo em algum momento e que, pela graça, olharam adiante para aquele segundo nascimento além de toda esperança.

Esta, então, é a razão pela qual ele diz: “Estas coisas são ditas alegoricamente”. Por alegoria, ele deseja expressar a comparação que pode ser feita entre coisas que aconteceram no passado e coisas que estão acontecendo agora. 11

Teodoro, como se vê, não nega o caráter metafórico das Escrituras. Antes, vê um sentido mais amplo ou espiritual em uma passagem do Antigo Testamento relacionando-a a eventos neotestamentários. Para ele, os alegoristas erraram agindo “como se toda a narração histórica da Escritura divina de nenhum modo diferisse de sonhos à noite”.  12

Comentando as palavras de Paulo aos Gálatas, no capítulo quatro, “do modo como”, Teodoro argumenta que, para Paulo, alegoria teve a mesma conotação de comparação, similaridade. Por esta razão, Teodoro enfatizou tanto o valor histórico dos eventos do Antigo Testamento, sem os quais não é possível haver comparação alguma. Naquilo que os alegoristas erram, negando historicidade, os escritores antioquinos, especialmente Teodoro, acertam enfatizando o perigo de se deixar de lado as histórias como fatos. E é justamente destes fatos que se retirará a theoria, ou, o sentido espiritual mais amplo que pode ser aplicado à algo que acontecerá num contexto futuro.



4. INTERPRETAÇÃO NO ANTIGO E NO NOVO TESTAMENTO
Teodoro possuía um modo especial de interpretar o Antigo Testamento. Ele entendeu que deveria ser reduzido em muito aquilo que era considerado em seus dias como passagens messiânicas no Antigo Testamento. Steven Gertz, coordenador editorial da revista Christian History (História Cristã), em um artigo sobre os oponentes da alegoria cita que, tanto Teodoro de Mopsuéstia como os demais eruditos da Escola de Antioquia, tiveram de “reduzir drasticamente o número de passagens do Antigo Testamento que os cristãos haviam tradicionalmente tomado como profecias messiânicas de Cristo”. 13

Quando interpretava o Antigo Testamento, Teodoro buscava devolver o texto à sua dimensão histórica, bem como à dimensão histórica da revelação. Segundo Lopes, para Teodoro, uma passagem do Antigo Testamento só poderia ser atribuída a Cristo, ou ser considerada messiânica, se fosse claramente usada como tal no Novo Testamento. Teodoro não aceitava meras alusões. Eram necessárias claras utilizações de passagens veterotestamentárias como messiânicas no Novo Testamento. Lopes comenta que passagens como o sacrifício de Isaque jamais seriam usadas como uma referência a Cristo, visto que nunca foram citadas no Novo Testamento e, por isso, não podem ser consideradas messiânicas.  14

Logo, na interpretação do Antigo Testamento, segundo Gilbert, “Teodoro de Mopsuéstia e Teodoreto de Ciro” opuseram-se abertamente a uma alegorização geral das Escrituras. Antes, eram a favor de um retorno ao respeito pelo sentido literal (normal) e histórico.15

Dentro de seus rigorosos critérios, Teodoro não aceitava como messiânicos os textos de Oséias 11.1s; Miqueias 4.1-3; 5.1s; Ageu 2.9; Zacarias 11.12-14; 12.10; Malaquias 1.11; 4.5s.  Antes, aplicando rigorosamente seus princípios de interpretação, alcançava uma explicação histórica plenamente satisfatória para cada uma destas passagens, sem necessariamente alegorizá-las, como faziam os da alegorese alexandrina.

Contudo, em outras passagens que são citadas no Novo Testamento, Teodoro é capaz de perceber tipos “que alcançavam seu verdadeiro cumprimento na revelação cristã”. Segundo Kelly, Teodoro estava pronto a concordar que alguns salmos e profecias, embora não fossem messiânicas, poderiam ser tomados como sombras, ou tipos, daquilo que seria em Cristo.17

Por isso, como afirma Matos, Teodoro não rejeitou inteiramente a interpretação espiritual ou tipológica no Antigo e no Novo Testamento. Antes, a admitia após acurada investigação por meio dos princípios de interpretação da Escola de Antioquia.18

CONCLUSÃO
Concluo ponderando no quanto a teologia e, principalmente, a hermenêutica modernas carecem de um retorno aos princípios outrora seguidos por Teodoro de Mopsuéstia. Quão valioso seria, num contexto de completo abandono de exegese bíblica, se os pastores retornassem à exegese praticada por Teodoro e os demais teólogos da Escola de Antioquia. Enquanto vivemos dias de abandono da busca pelo sentido histórico, literal (normal) e gramatical das Escrituras, crescem “doutrinas” ensinando o que as Escrituras não ensinam. Como disse Teodoro, tais homens inventam tolices, fábulas, pervertem as Escrituras, abusam da liberdade que têm para pregar, chegando a conclusões absurdas da revelação bíblica.

Após analisarmos todo o contexto em que a Escola de Antioquia surgiu e, no qual Teodoro de Mopsuéstia elevou-se ousadamente como um grande defensor do método de interpretação das Escrituras daquela Escola, constatamos o grande valor que ele, a Escola que ele representava, bem como sua luta pelo retorno à interpretação histórica e literal das Escrituras tem para a história da teologia.

Bom seria que este teólogo, chamado na igreja antiga de “O Intérprete”, sua história, e a história do movimento em favor de uma hermenêutica não alegórica fossem mais conhecidos nos dias de hoje. Sem dúvida alguma, muitos descaminhos que têm sido tomados pela igreja de Deus seriam evitados. Muitos deixariam de abusar e perverter as Escrituras. Certamente, muitos poderiam chegar à compreensão mais genuína da Revelação de Deus ao homem.

Robert Grant afirmou a importância e a forte influência que o método exegética antioquino teve para a Reforma Protestante. Tal método tornou-se um “pilar da Reforma”. 19 Segundo Grant, muitos intérpretes históricos têm considerado e louvado a coragem que Teodoro teve em seus dias. Embora tal ousadia e método de interpretação das Escrituras não tenha sido o principal método da igreja em toda a sua história, sem dúvida alguma ele continua sendo um marco para aqueles que desejam caminhar seguramente pelos caminhos da Revelação de Deus.

_____________________________________

1 GRANT, A short history of the interpretation of the Bible, p. 64. Minha tradução.
2 LOPES, A Bíblia e seus intérpretes, p.136.
3 Ibid., p. 136.
4 HALL, Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja, p. 179.
5 TRIGGS, Joseph W. Biblical interpretation. In: HALL, Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja, p.179.
6HALL, Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja, p. 181.
KELLY, J. N. D. Doutrinas centrais da fé cristã: origem e desenvolvimento. São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 56.
8 LOPES, A Bíblia e seus intérpretes, p. 136.
Ibid., p. 136.
10 Theodore of Mopsuestia. Commentary on Minor Epistles of St. Paul. In: WILES, Documents in early christian thought, p. 151. Minha tradução.
11 Theodore of Mopsuestia. Commentary on Minor Epistles of St. Paul. In: WILES, Documents in early christian thought, p. 153.154. Minha tradução.
12 Teodoro de Mopsuéstia. Commentary on Galatians 4.22-31. In: HALL, Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja, p.186.
13 GERTZ, Steven. Oponente of allegory. Christian History, Carol Stream, v. 22, n. 4, p. 28-29, nov./jan. 2004. p. 29.
14 LOPES, A Bíblia e seus intérpretes, p. 137.
15 GILBERT, Pequena história da exegese bíblica, p. 112.
16 Ibid., p. 57.
17 KELLY, Doutrinas centrais da fé cristã, p. 57.
18 MATOS, Elementos da teologia patrística, p. 21.
19 GRANT, A short history of the interpretation of the Bible, p. 72. Minha tradução.

 

  • 0 COMENTÁRIO(S)

Seja o primeiro a comentar.

 

  • DEIXE SEU COMENTÁRIO

[máximo 1000 caracteres]

Você já digitou: 0 caracteres.

 

  • AUTOR

Wilson Porte Jr.

Wilson Porte Jr.

Ministro da Convenção Batista Brasileira servindo como pastor na Igreja Batista Liberdade em Araraquara-SP. Bacharel em Teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e Mestre em Teologia (M.Div.) pelo Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

 

  • VEJA MAIS ARTIGOS DESTE ARTICULISTA