Teologia

Libertação para os tolos - Edição revista e ampliada

18/01/2013 17:00:07

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Libertação para os tolos - Edição revista e ampliada
Jamais discuta com um tolo. Pode ser que as pessoas não consigam perceber a diferença.
Mark Twain

Tolos. Se você conhece algum, vai entender perfeitamente a razão pela qual considero a persuasão lógica e racional uma péssima estratégia no diálogo com eles. O motivo é bem simples: o tolo é, por natureza, prisioneiro de si mesmo — tão prisioneiro que a sua voz é a única coisa que ele consegue escutar enquanto o outro fala. Por isso, não perca o seu tempo tentando explicar para um tolo o que você está dizendo. Não adianta. A capacidade de ouvir, esforçando-se para entender o outro, não é um hábito cultivado por ele. Salomão tinha razão quando disse que “o tolo não tem prazer no entendimento, mas sim em expor os seus pensamentos” (Pv 18.2).

O que mais me espanta é constatar que tamanha insensibilidade não é resultado de um distúrbio no aparelho auditivo (antes fosse!), mas sim de um fascínio exagerado que o tolo tem por si mesmo. Quem dera esse fascínio fosse uma resposta positiva ao célebre imperativo do “conhece-te a ti mesmo!" Infelizmente não é esse o caso. Tal fascínio não passa de egolatria. Assim como Narciso, o tolo não busca entendimento, mas autoabsorção, ou seja, ele não quer entender, quer, na verdade, admirar a si mesmo. Por isso, não vale a pena esperar do tolo a autocrítica. Ele é demasiado narcisista. Não está acostumado a refletir seriamente sobre suas ideias.

O tolo não se interessa pelo entendimento, pois sabe que essa tarefa exige certa desconfiança de si mesmo. A autodesconfiança é um ato de humildade. É acima de tudo a capacidade de pensar sobre nós mesmos, sobre nossas próprias ideias, confrontando-as e suspeitando de que elas não são tão nossas como parecem ser. Falta ao tolo justamente esse gesto de humildade, pois carece do entendimento de que suas ideias não são tão originais como aparentam ser.

Entretanto, falta ao tolo não apenas o entendimento daqueles que desconfiam de si mesmos, mas também o rigor daqueles que corrigem suas opiniões principalmente quando elas não condizem com a verdade. A propósito, a falta de entendimento e de rigor autocrítico são os dois sinais mais visíveis de que a condição do tolo não poderia ser outra senão a de um aprisionamento. Afinal, quem não é capaz de ponderar, de inquirir a si mesmo e de corrigir seus equívocos jamais será livre o suficiente para enxergar o mundo à sua volta. Mas, antes de falarmos mais detidamente a respeito do aprisionamento do tolo, é necessário desfazer o equívoco que poderia induzir alguém a confundir tolice com limitação intelectual.

Tolice e limitação intelectual

Antes de mais nada, é bom esclarecer que não estou chamando de tolo aquele que não tem estudo nem formação intelectual, mesmo porque não acredito que os intelectuais sejam imunes a tolices e nem tampouco que os poucos instruídos não possam ser sábios. Aqueles que conseguem alcançar o cume da inteligência também podem atingir o cúmulo da tolice. Por exemplo, existem pessoas que são dotadas de uma inteligência arguta, que sacam bem as coisas, com rapidez e sagacidade impressionantes, mas mesmo assim são tolas. Um caso concreto é o do filósofo alemão Martin Heidegger, que, apesar de possuir uma incontestável habilidade lógica e filosófica, ingressou no Partido Nacional Socialista e defendeu com veemência as ideias divulgadas pela propaganda nazista.

Em contrapartida, existem pessoas que são muito lentas quando pensam, mas são tudo menos tolas. Lutero, por exemplo, vivia reclamando pelos cantos da Universidade de Erfurt, na Alemanha, de que ele jamais poderia ser um teólogo de verdade porque se considerava lento demais para a filosofia e para o raciocínio lógico; e, diga-se de passagem, muitos seguidores de Philipp Melanchthon concordariam com Lutero. Mas foi esse teólogo pouco afeito à lógica e à filosofia o responsável por uma das mais importantes transformações ocorridas na igreja no alvorecer do século XVI. Tolice, portanto, não é sinônimo de limitação intelectual.

No entanto, não é suficiente desfazer o equívoco que leva alguém a confundir tolice com limitação intelectual. É preciso ir mais longe e dizer que a tolice não representa a fraqueza de alguns. Pelo contrário, ela é universal, é uma fraqueza inerente a todos os seres humanos. Todos os homens são, por natureza, tolos. A questão, portanto, não é saber como um homem se torna tolo, mas sim como pode deixar de sê-lo.

Na ocasião em que foi preso pelos agentes da Gestapo, o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer escreveu inúmeras cartas, as famosas “cartas da prisão”. Numa delas, ele disse que “somente um ato de libertação poderia vencer a tolice; um ato de instrução ou argumentação lógica nada pode fazer para convencer o tolo de sua tolice. Antes de tudo, o tolo precisa de uma libertação interior autêntica, e enquanto isso não ocorre temos de desistir de todas as tentativas de persuadi-lo”1.  Por isso, insistimos que não adianta discutir com o tolo. Enquanto ele não for liberto de si mesmo, qualquer palavra que for dirigida contra a sua tolice será como uma pérola lançada aos porcos.

O tolo e as sombras da caverna
A ideia de que, para alcançar o entendimento, é necessária uma “libertação interior autêntica” é bem antiga e pode ser, de certa forma, encontrada no livro VII da República. Nele, Platão descreve Sócrates dizendo para o jovem Glauco que, para as pessoas alcançarem o entendimento, elas precisam ser primeiramente libertas. Para explicar melhor essa ideia, o filósofo contou um mito sobre seres humanos que, desde o seu nascimento, estão aprisionados em uma caverna subterrânea. Eles não sabem o que é o mundo fora da caverna. Suas pernas e seu pescoço estão algemados de tal sorte que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas na direção de uma parede ao fundo.

Atrás deles, na entrada da caverna, há um foco de luz que ilumina todo o ambiente. Entre esse foco de luz e os prisioneiros, há uma subida ao longo da qual foi erguida uma mureta. E para além dessa mureta, encontram-se homens que transportam estátuas que ultrapassam a altura da mureta. Eles carregam estátuas de todos os tipos: de seres humanos, de animais e de toda sorte de objetos. Por causa do foco de luz e da posição que ele ocupava, os prisioneiros são capazes de enxergar, na parede ao fundo, as sombras dessas estátuas, mas sem conseguirem ver as próprias estátuas, nem os homens que as carregam. Como nunca viram outra coisa além das sombras, os prisioneiros pensam que elas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que as sombras não passam de projeções das coisas, nem podem saber que as coisas projetadas são apenas estátuas carregadas por outros seres humanos.

O que aconteceria, pergunta Sócrates a Glauco, se alguém libertasse os prisioneiros? O que faria um prisioneiro se fosse liberto de suas algemas? Sem dúvida, olharia toda a caverna. Ao seu redor, veria os outros prisioneiros, a mureta às suas costas, as estátuas e a entrada da caverna. Seu corpo doeria a cada passo dado. Afinal de contas, ele ficou imóvel durante muitos anos. Não bastassem as dores do corpo, ao se dirigir à entrada da caverna ficaria momentaneamente cego, pois aquele foco de luz que clareava a caverna, na verdade, era o sol com todo o seu fulgor. Contudo, com o passar do tempo, já acostumado com a claridade, seria capaz de ver não só as estátuas, mas também os homens que as carregavam. Prosseguindo em seu caminho, passaria a enxergar as próprias coisas, descobrindo que, durante toda a sua vida, não contemplara nada, a não ser as sombras das estátuas projetadas no fundo da caverna.

Na condição de conhecedor desse “novo” mundo, o prisioneiro liberto regressaria ao velho mundo subterrâneo. Ao chegar, ele contaria aos outros prisioneiros o que viu. Sua missão seria libertá-los, pois é somente na condição de homem livre que alguém pode ser capaz de contemplar o mundo das coisas tais como elas são. O que mais poderia acontecer após esse retorno? Uma estranha reação. Ao voltar e contar o que viu, os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras, pois, para eles, o único mundo admissível é o mundo no fundo da caverna. No entanto, se o escravo liberto teimasse em afirmar o que viu e insistisse em convidá-los a sair da caverna, os prisioneiros das sombras o matariam. E foi assim que Sócrates concluiu o famoso “mito da caverna”.

Tolos são como os prisioneiros que tomam as sombras como se fossem as coisas mesmas. Veja bem, o problema não está nas sombras. Aparentemente não há nada de errado com elas. O problema está no prisioneiro que não consegue perceber que as sombras são apenas uma espécie de vestígio de algo que está muito além delas. Assim como os prisioneiros no fundo da caverna, o tolo não consegue perceber que ele e suas ideias ultrapassam a si mesmos.

Já aquele que deixou de ser tolo é como o prisioneiro que não mais se satisfaz com as sombras projetadas no fundo da caverna, mas que, impulsionado pela curiosidade e pelo desejo de contemplar as coisas mesmas, se dirige para o outro lado, o lado da origem de tudo o que acontece no fundo da caverna. Entretanto, isso só é possível se o tolo for liberto de sua tolice. Nesse aspecto, tanto o platonismo como o cristianismo são bastante parecidos. Ambos reconhecem que o conhecimento da verdade, que salva o homem da tolice, pressupõe libertação. Ou melhor, uma dupla libertação, pois uma coisa é a libertação para conhecer e outra bem diferente é o conhecimento que liberta.

Dupla libertação e inteligência humilhada
Pois bem, o tolo precisa de uma dupla libertação: a libertação que é resultado do próprio conhecimento da verdade e a libertação que é fruto do irrompimento de um poder que liberta o tolo para conhecer a verdade. Por exemplo, alguém que tenha uma venda nos olhos só poderá enxergar o que está acontecendo à sua volta se ela for primeiro retirada. Nesse caso, o ato de enxergar pressupõe o ato de remover a venda. De forma semelhante, a libertação pelo conhecimento pressupõe a libertação para o conhecimento.

A libertação pelo conhecimento é semelhante ao ato de enxergar; já a libertação para o conhecimento é semelhante ao ato de remover a venda. Assim como para enxergar é necessário que primeiro seja removida a venda, também é necessária a libertação para o conhecimento a fim de que haja libertação pelo conhecimento. Ora, quem ou o que é responsável pela libertação para o conhecimento? Que poder é esse que liberta o coração do tolo para o conhecimento da verdade? É exatamente na resposta a essas indagações que o platonismo e o cristianismo se distanciam, permanecendo ambos em lados diametralmente opostos e irreconciliáveis.

Para o platonismo, o poder que liberta o tolo reside no próprio homem. É o homem que se liberta. É o tolo que busca forças em si mesmo para se libertar da tolice. Em contrapartida, o cristianismo reconhece a completa insuficiência e a incapacidade de o tolo se libertar. Não há no tolo recursos disponíveis e suficientemente capazes de libertá-lo para o conhecimento da verdade.

Se o platônico busca em si mesmo a libertação da tolice é porque ele acredita que a mera autorreflexão o tornará livre para conhecer a verdade. E, nesse sentido, o platonismo ainda é refém da autoabsorção do tolo. Já o cristão, ao contrário, se humilha diante de um poder superior que irrompe no coração do tolo e o livra de seu maior pecado: a autorreferência. O cristão sabe que não adianta tentar persuadir aquele que é prisioneiro de si mesmo. Por experiência própria, o cristão reconhece que somente um poder infinitamente superior poderá convencer o tolo de sua tolice.

Há quem pense que Platão, por causa da condenação de Sócrates, tenha desacreditado a maiêutica socrática2. Polêmicas à parte, o fato é que o platônico de carteirinha acredita que apenas com o uso da razão o tolo será liberto. Entretanto, parece que a libertação para o conhecimento requer mais do que o mero exercício da razão. O platônico acerta quando reconhece que é necessária a libertação do tolo, mas erra quando acredita que essa libertação reside na autonomia da capacidade racional do tolo. No final das contas, isso não passa de tolice disfarçada. Tal disfarce não convence, pois o homem sempre ultrapassa suas máscaras.

Na contramão do disfarce platônico está a inteligência humilhada do cristão. E que não se confunda “inteligência humilhada” com sacrificium intellectus! O cristão não pressupõe a morte da razão. O que ele pressupõe é a consciência de que a razão é insuficiente. Nesse sentido, podemos dizer que o cristão exige algo bem menos do que a autonomia da razão, porém bem mais do que o sacrifício do intelecto. Para o cristão, o que de fato está em jogo é a constatação de que a inteligência humana é insuficiente para conhecer a verdade. Ou seja, para chegar ao conhecimento verdadeiro, a razão depende de um poder que a transcende, que ultrapassa seus limites.

O platônico e o cristão entendem que a libertação implica a conscientização de si mesmo, isto é, o conhecimento de sua real condição. A diferença está no que ambos entendem ser a origem dessa conscientização. Para o platônico a consciência da real condição do tolo está no próprio tolo, uma vez que tal consciência é resultado da mera autorreflexão; para o cristão, por sua vez, a conscientização é fruto da ação interna do Espírito que liberta o coração do tolo para ouvir em primeiro lugar a voz de Deus. O cristão acredita que é a palavra de Deus, iluminada pelo Espírito, que conscientiza o tolo de sua tolice. Portanto, é o Espírito que liberta o tolo de si mesmo e o coloca diante de Deus. E, quando se está diante de Deus, não há pensamento algum que seja relevante o suficiente para ser dito. Eis a condição para a libertação do tolo: ouvir. E o próprio ato de ouvir já é por si só o primeiro sinal de uma “libertação interior autêntica”.

João Calvino chama essa ação do Espírito, que coloca o tolo diante de Deus, de testimonium internum Spiritus Sancti [testemunho interno do Espírito Santo] (Institutas, 1.7.4-5; 3.2.33). Calvino entende que, para o tolo ouvir a voz divina, não basta Deus falar. A razão é simples. O tolo é, por natureza, surdo para ouvir a voz de Deus e cego para enxergar a verdade revelada. Por isso, antes de ouvir, ele precisa ser curado de sua surdez; antes de ver, ele precisa ser curado de sua cegueira. Nas palavras de Calvino, “a palavra de Deus é semelhante ao sol: ilumina a todos a quem é pregada, mas não produz fruto entre os cegos. E, nessa parte, todos nós somos, por natureza, cegos. Por isso não pode penetrar em nossa mente, a não ser pelo acesso que lhe dá o Espírito, esse mestre interior, com sua iluminação” [Intitutas, 3.2.34]3.

O cristão, portanto, não nega que o conhecimento da verdade liberta o tolo, porém afirma que, antes de conhecer a verdade, o tolo precisa de uma libertação que não é fruto nem de uma reflexão sobre a verdade e muito menos de uma autorreflexão, mas sim de uma ação interna do Espírito que, com efeito, liberta o tolo para o conhecimento da verdade.

De fato, o platônico acerta quando diz que a condição primordial não é conhecer para ser liberto, mas ser liberto para conhecer. Todavia, equivoca-se quando entende que o poder que liberta é a mera reflexão. Nem mera reflexão, nem conhecimento teórico algum poderão libertar o tolo para o conhecimento da verdade. Algumas pessoas pensam que o remédio para a tolice está num seminário teológico, numa faculdade de filosofia ou num laboratório de ciências. Ledo engano. O seminário, a faculdade ou o laboratório podem ser mais sombrios que o fundo de uma caverna. Deus não fala a teólogos, filósofos e cientistas, mas a tolos perdidos em si mesmos. É uma tremenda tolice esperar dos seminários de teologia, das faculdades de filosofia ou dos laboratórios de ciências aquilo que somente o confronto com a voz de Deus pode dar. Como diz Herman Dooyeweerd,

o verdadeiro conhecimento de Deus e de nós mesmos (Deum et animam scire) ultrapassa todo o pensamento teórico. Esse conhecimento não pode ser objeto teórico, seja de uma teologia dogmática seja de uma filosofia cristã. Ele pode apenas ser adquirido pela operação da palavra de Deus e do Espírito Santo no coração, ou seja, na raiz e centro religioso de nossa existência e experiência humanas em sua inteireza4.

Em contraste com o platônico, o cristão entende que o único poder capaz de libertar o tolo é a voz de Deus. Apenas a palavra de Deus pode entrar no coração do tolo e romper as cadeias que o impedem de conhecer a verdade. Não! A libertação do coração não depende das artimanhas e dos improvisos do tolo! Não há nada no tolo que seja capaz de libertá-lo. Embora a libertação aconteça no seu interior, isso não significa que o tolo seja capaz de libertar-se. O poder de que falamos é de uma grandeza inalcançável e infinitamente superior. Trata-se do poder da voz que disse “Haja luz!” e houve luz. Ou seja, trata-se do poder que criou todas as coisas a partir do nada (ex nihilo) e com o poder da palavra. Não estamos falando de um poder que criou o mundo como um demiurgo que modela a matéria a partir das formas que desde sempre existiram. Pelo contrário, falamos de um poder que criou o mundo e tudo o que nele há apenas com a força de sua voz. É admirável pensar que o poder que fala ao coração do tolo seja o mesmo poder daquele que criou o universo simplesmente falando.

Conclusão
Para o cristão, a inteligência humilhada é uma condição que não pode ser evitada. Não há prevenção contra ela. Nenhuma criatura pode evitar a humilhação inerente à sua própria condição de criatura. A inteligência humilhada não é uma possibilidade, mas sim uma realidade, a realidade da Criação. A razão humana não deveria ser louvada quando o homem se recusa a humilhar-se diante de Deus5.  Ora, não existe algo como “a classe das inteligências que se humilham” e outro como “a classe das inteligências que não se humilham”. Diante de Deus, toda inteligência criada está sob a condição da humilhação. Em contrapartida, o que de fato existe é a consciência ou não de que, diante de Deus, toda inteligência criada está sob a condição da humilhação. Observe o sábio conselho que Blaise Pascal, filósofo e matemático francês, deu para os que acreditam que o seu próprio entendimento é um recurso suficiente para o conhecimento da verdade:

Conhecei, pois, soberbo, que paradoxo sois para vós mesmos. Humilhai-vos, razão impotente! Calai-vos, natureza imbecil; aprendei que o homem ultrapassa infinitamente o homem e ouvi de vosso Mestre vossa condição verdadeira que ignorais. Escutai a voz de Deus6.

Isso é o mesmo que dizer que nenhum louvor cabe ao tolo pelo conhecimento da verdade, o que é demasiadamente chocante para aqueles que são mais otimistas com relação à autonomia da razão. E não deveria deixar de ser, pois quem advoga a autonomia da razão acredita que o único poder que liberta o tolo está na própria natureza racional do ser humano. Na verdade, a atitude de buscar na natureza racional o poder para a libertação da tolice revela o quanto o tolo pode ser ainda mais tolo. E como dizia Salomão, “o tolo que faz uma tolice pela segunda vez é como um cão que volta ao seu vômito” (Pv 26.11).

__________________________
 1 Dietrich Bonhoeffer. Resistência e submissão. São Leopoldo: Sinodal, 2003, p. 34 (grifo meu).
 2 A palavra “maiêutica” vem do grego maieutiké e significa “realizar um parto”. No contexto do método socrático, maiêutica é a arte de “ajudar a alma a extrair de si os conhecimentos que contém em si mesma”. Rodolfo Mondolfo. O pensamento antigo. São Paulo: Ed. Mestre Jou, 1967 p. 215. Veja também Hannah Arendt. A dignidade da política. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993, p. 91-115.
 3João Calvino. A instituição da religião cristã. Tomo II. São Paulo: Unesp, 2009, p. 58-59.
 4 Herman Dooyeweerd. No crepúsculo do pensamento. São Paulo: Hagnos, 2010, p. 183. Embora concorde que Platão não rejeitou a possibilidade da revelação divina, Dooyeweerd entende que Platão havia negado que a revelação divina pudesse de alguma forma ser a fonte ou a origem do conhecimento verdadeiro, cf. p. 176.
 5 Segundo Calvino, “somos obrigados a olhar para cima, não só para que, em jejum e famintos, busquemos o que nos falta, mas também para, despertados pelo temor, aprendermos a humildade” (Institutas 1.1.1).
  6 Blaise Pascal. Pensamentos. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 47 (Laf. 131/Bru. 434).

 

  • 17 COMENTÁRIO(S)

Aender Borba | Belo Horizonte/MG | 29/01/2013 14:50:44
Parabéns, Jonas!! Seu texto é muito claro e sempre muito gostoso de ler.
Ricardo Rios | Salvador/Ba | 29/01/2013 15:35:56
Caríssimos, excelente texto! Profundo, direto e iluminado! Parabéns pelo belo texto! Deus os abençoe!
Éverton Wilian dos Reis | Araraquara/SP | 29/01/2013 19:25:57
Excelente artigo, Jonas! Muito realista com relação às cosmovisões platônica e cristã, um modo muito sólido de ombrear ambas e de esclarecer o ponto em que a segunda se mostra mais coerente que a primeira. (Lembrando que nenhum de nós é tolo a ponto de afirmar que alguma ideia cristã seja de invenção nossa). Que Deus nos encha de sabedoria para servi-lO! Parabéns!
Carlos Neca | Itapecerica/mg | 29/01/2013 21:18:48
Tolo é quem não concordar. Excelente artigo...
leandro almeida | são gonçalo/rj | 30/01/2013 12:51:49
Texto lúcido, fluido e de boa compreensão.
César Lopes | Parnamirim/RN | 30/01/2013 17:32:28
Excelente artigo! Ao término da leitura me sobreveio o seguinte pensamento: nosso Deus é magnífico e viver seus desígnios é algo sublime.
Francisco de Assis Torbitoni | São Paulo/SP | 31/01/2013 01:38:27
Procurarei ser menos platonista e mais cristão, que o Espírito de Deus me liberte da minha tolice, e que eu permaneça muitas horas do dia sobre a influência do Espírito Santo, assim falarei pouca tolice. Essa leitura foi bastante proveitosa, obrigado por te-la escrito.
Humberto Pereira Oliveira | Belo Horizonte/MG | 31/01/2013 15:21:46
Excelente texto. Parabéns pela abordagem clara e objetiva.
EMIKO COSTA | Americana/SP | 04/02/2013 10:53:35
Texto excelente Emiko.
Eliana dos Santos Pires Pires | Brasilia/DF | 04/02/2013 12:04:47
Esclarecedor o provérbio :corrija um sábio e ele se tornara mais sábio. Corrija um tolo e ele tornará seu inimigo. Soma ao texto, o TOLO de fato é um Narcisista.Excelente.
Carlos Eduardo Bernardo | Taboão da Serra/SP | 11/02/2013 14:47:23
Muito belo este artigo, Jonas. Temos bastante a pensar sobre este rico assunto. Seu escrito muito contribui para esta empreitada. Parabéns!
janes ribeiro | serra/es | 11/02/2013 23:48:03
otimo gostei demais,parabens!
ednardo de souza nacimento | ALMENARA/mg | 13/02/2013 09:01:06
Belo texto. Provocante. Desafiador. Esclarecedor.
Christiano Santana | Rio de Janeiro/RJ | 01/04/2013 22:58:06
O texto é muito esclarecedor beseado na perspectiva cristã. Concordo em partes com o texto apresentado, porém não se pode afirmar que a libertação para o conhecimento advém do reconhecimento por parte do indivíduo de que todo poder vem de formas divinas - Deus. É um texto muito coerente com a visão cristã, mas não apresenta uma visão mais generalista, acaba por deixar tendencioso ao pré-julgar que a libertação pela razão e pela busca interior é um recurso falho. Basear-se em textos bíblicos não é fundamentação científica para contra-argumentar ideias. Espiritualizar assuntos mais científicos e filosóficos, por vezes, confirma apenas uma visão empírica já enraizado no meio teológico. Contudo, congratulo-o pela ótima produção, pela elucidação de termos-chave (como tolo, formação intelectual, entre outros) e pela exposição de ideias foram de muito bom-tom abordá-los. Grande abraço.
Marjorie Câmara | Natal/RN | 04/06/2013 17:06:38
Que alegria! Sou lenta e mesmo assim consegui entender o seu texto. Muito me alegra a sua leitura, que retira toda e qualquer vestígio de glória do homem e confere-a somente a Deus. Alegro-me em ver que somente Ele é quem pôde me curar de minha cegueira, por Sua grande Graça. Foi Ele quem abriu os meus olhos há 7 anos. Isso só reforça para mim a certeza calvinista de que toda a obra é de Deus.
Jeovam Alves dos Santos | Prado/Ba | 18/10/2013 19:27:08
Excelente texto! Já tive o prazer de ouvir o Jonas Madureira numa ocasião, falando para pastores, em Barreiras fiquei seu fã. Teologia segura e firme apologista, lendo-o agora maravilhei-me com o texto. Perfeito!
Vinicius Oliveira | Montenegro/RS | 18/07/2014 15:01:28
Belo texto. Fácil compreensão e o melhor, edificante. Coloca em todos nós a cautela de depender da sabedoria do alto, e não da sabedoria terrena. Parabéns!

 

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  • AUTOR

Jonas Madureira

Jonas Madureira

É bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro em São Paulo; bacharel, mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutorando em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Professor Titular de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea e Filosofia do Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro e do Seminário Teológico Bethesda. Autor do livro "Filosofia" do Curso Vida Nova de Teologia Básica publicado por Edições Vida Nova. Em 2005, recebeu da PUC-SP a premiação de Menção Honrosa, na área de Filosofia, pelo estudo que apresentou sobre a doutrina do conhecimento negativo de Deus em Tomás de Aquino.

 

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