História da igreja

Os congregacionais: origem, inserção e contribuições

400 anos de história, lutas e bênçãos!

20/09/2016 09:53:18

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Os congregacionais: origem, inserção e contribuições Resumo

Este artigo é uma breve apresentação histórica dos congregacionais, desde a sua origem na Inglaterra no século XVI, seu deslocamento para as colônias americanas no século XVII e a inserção no Brasil no século XIX, assim como dos legados construídos nessas nações.

Introdução

O congregacionalismo foi uma das ramificações do protestantismo inglês que rapidamente deslocou-se para outras nações como Holanda e Estados Unidos em face das perseguições religiosas que marcaram a sociedade inglesa nos séculos XVI e XVII, fazendo-se presente também no Brasil, mas, diferentemente, por meio da atuação missionária. Há debates, inclusive, que não serão ocupados aqui, pois fogem ao escopo desta intenção, se o congregacionalismo brasileiro pode ser comparado ao inglês ou ao norte – americano. Entretanto, dado à objetividade de nossa proposta, não trataremos neste artigo deste item, mas sim da origem desta família protestante fortemente identificada com questões sociais que nunca se limitou a pensar e produzir o discurso religioso aos que participam das comunidades eclesiais, mas também a lutar por liberdade individual, igualdade, a pensar a fé, a estimular a experiência com o divino, a assumir a administração das greis, a educar as famílias não só na sã doutrina, mas também nas ciências, fundando escolas, além, é claro, de criticar a opressão religiosa exercida tanto pela Igreja Católica como pela Anglicana e também a opressão política oriunda da Coroa Britânica. De forma que, como veremos, a importância do congregacionalismo ocorre por suas contribuições ao protestantismo, assim como o legado deixado na fundação dos Estados Unidos da América através dos puritanos, pela prática de um modelo de governo que representou uma experimentação dentro de um arcabouço religioso da teoria social do homem livre, sem mediadores, que assume seu destino e se responsabiliza diante de Deus e dos homens acerca de suas escolhas, sejam estas pessoais, políticas ou vocacionais.

O mundo explicado e entendido por meio de uma única autoridade religiosa caminhava para o seu fim. O congregacionalismo é uma expressão religiosa que se aproveitará desse fenômeno social que marcará profundamente as transições que o Ocidente conheceria.

I - Conhecendo os congregacionais:  a origem na Inglaterra

Os congregacionais, também chamados de congregacionalistas ou independentes, fizeram parte da primeira geração de protestantes ingleses. Oriundos da Reforma Anglicana,1 sua história está relacionada ao puritanismo,2 movimento crítico e reformador que atuou no seio da Igreja Anglicana com o objetivo de despi-la das características da Igreja Católica Apostólica Romana que exerciam enorme influência mesmo depois da emancipação promovida pelo rei Henrique VIII.

Os congregacionais reivindicavam uma paróquia autônoma e independente de instâncias externas ou superiores, diferente do que ocorria na Igreja Anglicana (centralizada, verticaliza e submissa ao monarca inglês) e da Igreja Católica Apostólica Romana (também hierarquizada, submissa ao Papa).

Com tal autonomia e independência, cada congregação (por isso “congregacional”) estaria apta para eleger seus ministros, praticar sua liturgia e administrar os recursos oriundos dos congregados.

O modelo congregacional de governo representou uma novidade para os padrões eclesiásticos no século XVI, fortemente marcado, na Europa, pela maciça presença da Igreja Católica Apostólica Romana que, como mencionado acima, possuía um modelo governamental verticalizado, centralizado na figura do Papa. Tal modelo hierárquico, uma herança do Império Romano. Mesmo com a separação da Igreja Inglesa da Igreja Católica, o sistema foi mantido, diferenciando apenas que o monarca inglês seria seu governante3.

A primeira manifestação histórica (mas não ainda institucional do congregacionalismo) que se tem notícia ocorreu em Londres, no século XVI.  Em 19 de junho 1567, um grupo de cristãos ingleses insatisfeitos com os rumos da Reforma na igreja em seu país, se reuniu no “Salão Plumbers” sendo, contudo, disperso pelas autoridades locais, tendo alguns de seus congregados açoitados, presos ou mortos, além dos que fugiram para a Holanda,4 onde deram também início por lá às tradições eclesiásticas congregacionalistas.

No ano de 1616, em Southwark um bairro londrino, considerado à época uma fornalha do não conformismo inglês,5 com nítida rejeição à igreja oficial, foi organizada institucionalmente a primeira Igreja Congregacional na Inglaterra,6 marcada por profissão de fé, arrependimento e votos.7 No mesmo ano uma “declaração de fé”, documento doutrinal, foi elaborada, organizada em vinte e oito afirmações teológicas.8 

Há na literatura um registro do dia da organização da grei feita por um dos presentes:
“Henry Jacob, com Sabine, Staiesmore, Richard Browne, Davi Prior e vários outros santos esclarecidos marcaram um dia para buscarem a face do Senhor com jejum e oração, quando especificamente a sua união como igreja foi mais intensamente pedida ao Senhor, e no fim do doa dia estavam unidos.
Assim, aqueles que pensaram nesta presente união, agora estão juntos, todos os irmãos unidos ombro a ombro e fizeram uma aliança: declarados seus intentos, Henry Jacob e cada um dos restantes fizeram confissão ou profissão de fé e arrependimento, umas mais longas, outras mais curtas.
Depois se pactuaram a andar em todas as veredas de Deus como Ele as tinha revelado ou que lhes fizesse conhecer: Foi assim o início dessa igreja.”9
Esta comunidade é considerada na literatura especializada em história do protestantismo a célula mater do congregacionalismo10  no mundo.

II - Os congregacionais e as colônias americanas: a fundação dos Estados Unidos da América.

Em 26 de dezembro de 1620, cento e duas pessoas,11 das quais um terço era de congregacionais,12 desembarcaram em Plymouth (Massachussetts) do Mayflower, navio que partira da Inglaterra em 16 de setembro de 1620 devido as constantes perseguições religiosas. Antes do dia do desembarque, em 11 de novembro, na Baia de Cap Cod, quarenta e um homens entre os peregrinos,13 assinaram um termo de compromisso que ficou conhecido como o “Mayflower Compact”14  visto que para as terras onde estavam se dirigindo não haviam leis estabelecidas que regulassem a vida em sociedade.

O primeiro ano foi por demais difícil em razão do clima e das condições precárias que os peregrinos15 encontraram.16 Contudo, no mês de novembro de 1621, após um ano nos limites da colônia, gratos pela colheita de milho, mataram um peru e prepararam iguarias, convidando o chefe de uma tribo indígena vizinha para participar da celebração. Esta festa foi fixada no calendário e é conhecida como o “Dia de Ação de Graças” (Thanksgiving)17

Os congregacionais, também chamados de puritanos18 na literatura que trata da memória da fundação da nação americana, eram calvinistas e ajudaram a construir a noção de nação eleita por Deus.19

O crescimento foi acelerado nas colônias. Em pouco mais de cem anos a população de duas mil e quinhentas pessoas ultrapassou a ordem dos três milhões de habitantes, exigindo o emprego de leis que viabilizassem a convivência20  e também de uma sólida formação educacional que seria uma das contribuições sociais mais significativas dos congregacionais (e também de outros grupos protestantes) à nação americana,21 visto que até o meado do século XIX contribuíram com a organização de vinte e nove instituições de ensino.22 Algumas destas instituições (“college”) figurariam entre as melhores universidades do mundo, tais como Harvard, fundada em 1636, em Massachussetts, com o nome de New College, alterado posteriormente para Harvard em homenagem ao ministro da Igreja Congregacional de Massachussetts, John Harvard, seu primeiro e maior benfeitor e a Universidade de Yale fundada em 1701 com o nome de Collegiate School.

A presença marcante dos puritanos congregacionais cunhou os padrões morais dos americanos nos seus primeiros séculos, pois a influência era exercida não só nos aspectos religiosos, mas também educacionais, políticos, civis e cerimoniais.23 A reivindicação contemporânea de uma fé privada e sem influência alguma sobre a vida social dos indivíduos obviamente era desconhecida à época. Pensar trabalho, família, política, educação e sociedade sem o referencial religioso era inimaginável24  e a nova nação do chamado “Novo Mundo” teria, portanto, muito de seu ethos moldado por valores do protestantismo (congregacional, presbiteriano, batista, metodista, episcopal, Quakers e outros).

O registro acima da influência protestante na sociedade americana é tão somente tópico, pois, na verdade, em se tratando de Europa que irá fornecer os imigrantes que povoarão o Novo Mundo (as “três Américas” – Norte, Central e Sul) a maior presença religiosa e social sobre o homem medieval era católica, a maior família da cristandade e norteadora de todo ethos e cosmovisão de uma época.  A Tradição protestante nos países europeus estava em construção, enquanto a Tradição católica estabelecida no continente há quase de mil e quinhentos anos. 

A cosmovisão na Idade Média pode ser explicada nos termos em que Lucien Febvre nos apresenta:
“... queiramos ou não, o clima de nossas sociedades ocidentais é sempre, profundamente um clima cristão. Outrora no século XVI, ainda mais: o cristianismo era o próprio ar que respirava no que chamamos a Europa e que era a cristandade. Era uma atmosfera na qual o homem vivia sua vida, toda a sua vida – e não apenas a sua vida intelectual, mas também sua vida profissional, qualquer que fosse seu âmbito. Tudo, de certo modo automática, fatal e independentemente de toda vontade expressa de ser crente, de ser católico ou de praticar a religião.

Pois hoje, escolhe-se. Ser cristão ou não. No século XVI, não havia escolha. Era-se cristão de fato. Podia-se vaguear em pensamento longe do Cristo: jogos de imaginação, sem suporte vivo da realidade. Mas não se podia nem sequer se abster-se de praticar. Se se quisesse ou não, se se percebesse claramente ou não, as pessoas achavam-se mergulhadas desde o nascimento num banho de cristianismo, do qual não se evadiam nem mesmo na morte, pois essa morte era cristã necessária e socialmente, pelos ritos a que ninguém podia furtar-se – mesmo se estivesse revoltado diante da morte, mesmo se houvesse zombando e se estivesse feito de brincalhão em seus últimos momentos. Do nascimento à morte, estendia-se toda uma cadeia de cerimônias, de tradições, de costumes, de práticas – que, sendo todos cristãos ou cristianizados, atavam o homem o homem involuntariamente, mantinham-no cativo mesmo que ele se pretendesse livre”.25
III– Congregacionalismo: uma teoria social

A importância dos congregacionais não está vinculada apenas à história da fé cristã protestante. Limitar suas ações somente à História da Igreja seria um equivoco, pois como atores sociais dentro de um contexto histórico específico os congregacionais com a sua experimentação eclesiástica foram representantes, dentro de um arcabouço religioso, de uma verdadeira Teoria Social. O congregacionalismo representou a aplicação e desenvolvimento do homem livre, o emancipado que compreende que a despeito de participar ou colaborar com instituições, pode e deve tomar para si suas responsabilidades e destinos sem esperar que agências mediadoras façam por ele.

Na Idade Média, contexto imediato do experimento congregacional, a ideia de homens livres que rejeitam a participação em uma instituição cristã legal e magisterial e que sozinhos podem iniciar uma comunidade de fé, dos quais serão seus responsáveis - cuja aplicação é resultado da livre consciência, do acesso e exame aos documentos canônicos e da interpretação - seria revolucionária, uma vez que o paradigma da verdade era institucionalizado e vinculado à Igreja, considerada fonte e detentora da autoridade. Destarte, o homem ocidental era localizado na história tendo a Igreja oficial como a legitimadora de sua condição social.

O congregacionalismo, com sua ênfase no indivíduo, na consciência, na liberdade eclesiástica e na autonomia administrativa revela-se como uma versão religiosa da emancipação do indivíduo e da experimentação prática de determinadas revoluções sociais pelas quais a Europa vinha testemunhando em outros locis.26

IV – Os congregacionais no Brasil: evangelização e canto


No ano de 1855 desembarcou no Rio de Janeiro o casal Robert Reid Kalley e Sarah Poulton Kalley. Ele, escocês, médico e presbiteriano.27 Ela, inglesa, musicista, e congregacional.28 Era o dia 10 de maio. Por razões climáticas e sanitárias se transferiram para Petrópolis, cidade com clima de montanha, bucólica e mais convidativa aos europeus e, além disso, de moradia do Imperador Dom Pedro II com quem os recém - chegados estrangeiros construiriam reconhecida amizade.

No mesmo ano, em 19 de agosto, o casal de missionários organizou uma classe de catequese, chamada na tradição protestante de escola dominical,29 onde cinco crianças foram ensinadas sobre a história do profeta Jonas, personagem do Antigo Testamento da Bíblia Sagrada. Essa aula é considerada nos estudos sobre a religião no país como marco, pois lançou as bases da missão protestante evangelizadora em língua portuguesa que deram origem à Igreja Evangélica Fluminense, considerada a primeira igreja evangélica no Brasil30 e núcleo dos congregacionais brasileiros.31 O dia 19 de agosto é comemorado anualmente pelos congregacionais brasileiros, em diferentes regiões do país. As igrejas locais repetem a história da chegada dos missionários em prédicas pastorais, artigos, boletins e até peças teatrais encenadas nos próprios templos.

De acordo com o senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística os congregacionais hoje somam hoje pouco mais de centro e quarenta mil na composição do cenário protestante brasileiro32 e estão presentes em todos os Estados, sendo reconhecidos como um dos grupos do chamado “protestantismo de missão”33 que aportaram no Brasil no século XIX, trazendo significativas contribuições para as conquistas das garantias individuais de liberdade de culto,34 crítica social,35 permissão e reconhecimento aos ministros protestantes à celebração  de matrimônios36 e ao cerimonial fúnebre com liturgias distintas as praticadas pelo catolicismo,37 a inserção da tradição protestantes de evangelização pessoal de caráter conversionista com uso de pregadores e vendedores de Bíblias (colportores) que transitavam entre as áreas urbanas das cidades assim como nas áreas rurais e interioranas também é legado dos congregacionais. Na liturgia a influência é reconhecida, pois estabeleceram o padrão de culto protestante com destaque na música sacra fortemente marcada pelo uso dos “Salmos & Hinos”, hinário com canções devocionais usado nos cultos congregacionais e que passou a ser utilizado por outras tradições protestantes durante quase todo o século XX.
Uma das marcas mais notórias dos congregacionais no Brasil foi litúrgica conforme registrada no parágrafo acima. A oferta do hinário “Salmos & Hinos” à igreja brasileira despertou o interesse pela teologia cantada nos cultos.

Em 1913 os congregacionais brasileiros organizaram a sua primeira convenção de igrejas.38 Duas decisões importantes foram tomadas: A organização em uma estrutura denominacional que ficaria conhecida com o exótico nome de União das Igrejas Evangélicas Indenominacionais do Brasil, que revelaria uma inconsistência teórica, pois a iniciativa apontava para organização majoritária que, contudo, através de seu nome adotado, parecia querer negá-la. O nome foi abandonado com o tempo, havendo vários outros, por diferentes motivações, até se chegar, em 1969, ao nome que hoje reúne a maior parte das igrejas congregacionais brasileiras: a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (UIECB).

Outra decisão importante daquela convenção foi a criação do Seminário Teológico para a preparação dos futuros obreiros. O mesmo teve suas aulas iniciadas em 03 de março de 1914, no Rio de Janeiro,39 sendo responsável pela formação de boa parte dos vocacionados da seara congregacional, servindo também para obreiros de outras denominações.

Há algumas ramificações do trabalho do dr. Robert Kalley no Brasil. Contudo, a UIECB segue sendo o maior grupo com mais de 450 igrejas, além das congregações, campos missionários e pontos de pregação e, aproximadamente, mil pastores arrolados.

Considerações finais

Embora pouco expressivo quanto a sua presença numérica em boa parte dos países onde se estabeleceu (tais causas carecem de uma pesquisa com rigorosa metodologia) o congregacionalismo, contudo, representa um dos capítulos mais interessantes do protestantismo. Tanto por sua teoria social, como pela articulação política (com os puritanos no Parlamento inglês), assim como sua decisiva participação na fundação dos Estados Unidos da América e construção do ethos protestante e calvinista da nação, além, é claro, das contribuições sociais (como a fundação das universidades) e da inserção no Brasil, por meio do trabalho dos Kalley, da primeira igreja evangélica de língua portuguesa (Igreja Evangélica Fluminense, núcleo dos congregacionais no Brasil), marcando assim o início de nossa evangelização pátria, modelando o culto protestante através da liturgia apontada nos Salmos & Hinos.

Uma rica tradição! Uma bela história!

Ao Salvador Jesus Cristo, Senhor de toda a família Congregacional, toda a honra e glória, pelos séculos dos séculos, amém!

Referências bibliográficas
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1A controvertida e polêmica versão inglesa da Reforma Protestante que deu origem à Igreja Anglicana, a principal do país, em 1534. Uma das páginas mais lamentáveis da história da ilha em vista que para patrocinar a ruptura com Roma o preço moral que se pagou foi dos mais altos, com os relatos de pilhagens das riquezas e posses dos mil e duzentos mosteiros confiscados (gerando fortunas indevidas para famílias inglesas interessadas no processo) e muitas mortes de monges e padres que se recusavam a reconhecer a nova expressão religiosa da nação e que, em punição, foram “enforcados, estripados e cortados em pedaços”. Cf. GIODARNI, Mario Curtis. História dos Séculos XVI e XVII na Europa. Petrópolis: Editora Vozes, 2003.p.887.  Atualmente os fiéis que compõem a Comunhão Anglicana (fraternidade que reúne quatrocentos e cinquenta dioceses, divididas em quarenta e três províncias) somam, aproximadamente, oitenta e quatro milhões de membros em mais de cento e sessenta e cinco países.
2Movimento ulterior no anglicanismo. Chamados assim devido à insistência em seus discursos quanto à “pureza” da igreja. Consideravam a Reforma Anglicana inacabada e superficial, pois muito da liturgia católica foi mantida e almejavam uma grei mais próxima com ideais da Reforma Protestante em andamento na Alemanha e Suíça. O puritanismo tornou-se influente em solo em inglês nos debates sobre religião (tema caro ao homem medieval) e foi o nascedouro de conhecidas ramificações do protestantismo como os presbiterianos (cujo movimento se tornou vigoroso na Escócia), batistas, além dos próprios congregacionais que serão apresentados no presente artigo. Não foi apenas um movimento religioso, mas uma teoria social: “Os puritanos possuíam ideais elevados de integridade e de serviço social [...] forneceu um espírito de luta extraordinário. Ele agradava aos homens com consciência social...” Cf. HILL, Christopher. O Século das Revoluções 1603 – 1714. São Paulo: UNESP, 2012.p.90.
3Ato de Supremacia de Henrique VIII, em 1534: “ ... o rei, nosso senhor soberano, seus herdeiros e sucessores, reis deste reino, sejam aceitos e reputados como único e supremo chefe na terra da Igreja da Inglaterra”.
4PORTO FILHO, M. Congregacionalismo Brasileiro. Rio de Janeiro: DERP, 1997. p.14.
5GOMES, Joelson. Livres para Adorar. PDF.
6LLOYD - JONES, David Martyn. Os Puritanos: Suas Origens e Seus Sucessores. São Paulo: Editora PES, 1993.p. 172.
7Ibid.
8Ibid.
9Ibid. O registro está disponível na obra do Rev. David Martyn Lloyd – Jones, que o inclui em sua palestra intitulada “Henry Jacob e a Primeira Igreja Congregacional”, ministrada na Capela de Westminster (Londres) em 1966 por ocasião das celebrações dos 350 anos de organização institucional do congregacionalismo inglês. LLOYD – JONES (1889 – 1981) foi um dos mais prestigiados ministros congregacionais do século XX. Deixou a medicina aos vinte e sete anos de idade quando já era Chefe Assistente Clínico de Sir Thomas Horder (médico do rei da Inglaterra) para dedicar-se integralmente ao ministério evangélico, exercendo o pastorado por doze anos no País de Gales (sua terra natal) e, posteriormente, na Inglaterra, por mais de 30 anos, na Westmister Chapel.
10O congregacionalismo pode ser definido como o sistema eclesiástico de governo em que cada congregação é autônoma, soberana e independente, não respondendo a nenhum controle externo, além de sua própria congregação e que tem na sua reunião administrativa, a “assembleia de membros”, sua autoridade máxima. Embora conviva em fraternidade com outras congregações, esta convivência, praticada por meio de alianças, juntas e convenções, ocorre apenas para efeito pedagógico e auxílio em ações evangelísticas, educacionais, sociais e afins.
11GOMES, Joelson. Op.Cit. No prelo. Gomes, ministro da Igreja Congregacional no nordeste e pós – graduado em História, é pesquisador do congregacionalismo. Sua obra, contendo a fundamentação teológica e a história dos congregacionais, será publicada em breve. Este autor teve acesso aos textos de Gomes por meio de contatos eletrônicos (e-mail).
12
Ibid.
13Ibid.
14“Em nome de Deus, amem. Nós, cujos nomes estão escritos abaixo, súditos leais de nosso temível soberano senhor, Rei James, pela graça de Deus rei da Inglaterra, França e Irlanda, defensor da fé. Havendo empreendido para a gloria de Deus, avanço da Fé Cristã, e em honra de nosso Rei e pátria, uma travessia para plantar a primeira colônia ao norte da Virgínia; fazemos pacto solene e mutuamente, na presença de Deus e nossa, e conjuntamente formamos um corpo político civil para nossa ordem, preservação e estímulo dos fins antes ditos; e em virtude disto estabelecemos, aprovamos, constituímos e formulamos leis justas e equitativas, ordenanças, atas, constituições e ofícios, de tempos em tempos, segundo seja considerado próprio e conveniente para o bem estar geral da colônia, para a qual prometemos toda a devida obediência e submissão. Na fé do qual temos subscrito nossos nomes em Cape Cod, em onze de novembro, no reino de nosso soberano senhor, Rei James, o decimo oitavo rei da Inglaterra, França e Irlanda, e o quinquagésimo quarto da Escócia. Ano de Nosso Senhor, 1620."
15KARNAL, Leandro. [et al]. História dos Estados Unidos. São Paulo: Editora Contexto, 2016.p.46.
16Muitos dos “Pais Peregrinos” morreram nesse primeiro ano. Praticamente metade dos que desembarcaram. Cf. TOTA, Antônio Pedro. Os Americanos. São Paulo: Editora Contexto, 2014.p.19.
17KARNAL, Leandro. [et al].Op.cit. p.46.
18Embora nem todos os puritanos fossem congregacionais haja vista que o puritanismo se fez presente em outros modelos do protestantismo, tais como presbiterianos e mesmo os batistas.
19KARNAL, Leandro. [et al]. Op.cit.p.47.
20Ibid.p.47.
21Ibid.p.48.
22MATOS, Alderi de Sousa. Universidades Protestantes: Benefícios e riscos. Disponível em: www.ultimato.com.br Acesso em: 14 de jul de 2016. O autor é doutor em História da Igreja pela universidade de Boston (EUA), ministro e pesquisador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil e Coordenador do Centro de Pós - graduação Andrew Jumper da Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo.
23Ibid.p.51.
24ARMSTRONG, Karen. Campos de Sangue: Religião e a História da Violência. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p.282.
25FEBVRE, Lucien. O Problema da Incredulidade no Século XVI: A Religião de Rabelais. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.p.292.
26Como, por exemplo, entre os intelectuais (humanistas) e artistas (renascentistas) entre os séculos XIII e XVII. A própria Reforma Protestante (com sua eclosão no século XVI, na Alemanha) receberá influências intelectuais desses movimentos e responderá também ao “zeitgeist” (“espírito da época”), com o uso da razão como critério para entender a vida, a ciência e a fé, por meio das Escrituras Sagradas (Sola Scriptura); valorização da informação (cultivo da leitura, da catequese e da recente imprensa) e do indivíduo (justificação pela fé individual somente e não mais mediada pela igreja). Cf. MCGRATH, Alister. Origens Intelectuais da Reforma. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.p.43-74. Historiador e professor da Universidade de Oxford, McGrath na obra, e também em “O Pensamento da Reforma” (Cultura Cristã, 2014), identifica as ideias que circulavam entre os intelectuais da Europa que afluíram para o programa reformador de Martinho Lutero.  Em sequência o congregacionalismo é uma tentativa mais radical e moderna do que a luterana, pois concorda com o lastro intelectual principal da reforma alemã, mas ousa no experimento eclesial, diferentemente daqueles reformadores que operarão com um modelo erastiano de igreja.
27LÉONARD, Émile G. O Protestantismo Brasileiro. São Paulo: ASTE, 2002.p.56.
28CARDOSO, Douglas Nassif. Sarah Kalley: Missionária Pioneira na Evangelização do Brasil. São José dos Campos: Edição do Autor, 2005.p. 86. O autor é ministro congregacional e professor do curso de pós – graduação em Ciências da Religião na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Reconhecido pesquisador do legado de Sarah Kalley.
29Núcleo de ensino bíblico. Sua origem está ligada ao nome do jornalista inglês e membro da Igreja Anglicana, Robert Raikes, em 1780. Implantou o modelo de catequese visando alcançar as crianças pobres de Gloucester. As mesmas recebiam aulas de inglês, matemática, moral e cívica e de Bíblia. A Escola Dominical, amplamente usada pelos mais variados seguimentos do protestantismo, foi e continua sendo uma das mais eficientes ferramentas pedagógicas do protestantismo. Seu emprego no Brasil tem como marco a classe liderada pelo Casal Kalley em Petrópolis em 1855.  Cf. GILBERTO, Antônio. A Escola Dominical. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.p.17.
30LÉONARD, Émile G.Op.cit.p.57.
31A Igreja Evangélica Fluminense, fundada em 11 de julho de 1858, está localizada na Rua Camerino nº 102, no centro da cidade do Rio de Janeiro e mantém regularmente o funcionamento de seus cultos e demais serviços. Embora o trabalho do casal Kalley no Brasil tenha começado em 1855, a organização da igreja se deu somente três anos depois, tendo como marco o batismo de Pedro Nolasco de Andrade, considerado o primeiro crente brasileiro a passar pelas águas do batismo em uma igreja protestante. Cf. LÉONARD, Émile G. Op.Cit. p. 57. Cf. CARREIRO, Vanderli Lima. Lições de História do Congregacionalismo. Curso de História Denominacional. [s.d.]. 77 f. Seminário Teológico Congregacional do Rio de Janeiro. p. 27. Cf. CARDOSO, Douglas Nassif. Op. Cit.p128-130. 
32Há inúmeros debates e demais esforços que tentam explicar a razão da primeira comunidade evangélica estabelecida no Brasil, presente há 161 anos, ter um desenvolvimento tão tímido quando comparada a outras denominações como as das de tradição Presbiteriana (1859), Batista (1881) e Assembleia de Deus (1910).  A denominação ainda carece de uma hipótese satisfatória ao problema do seu fraco crescimento.
33Tipologia que representa grupos protestantes como os congregacionais, presbiterianos e batistas que desembarcaram no Brasil com missão proselitista. Diferentes dos grupos anteriores (anglicanos, em 1910 e luteranos em 1920) cuja atuação fora tão somente pastoral aos seus fiéis ingleses e alemães, respectivamente e que estavam morando e trabalhando no Brasil (Rio, Nova Friburgo e cidades do sul do Rio Grande do Sul).
34LÉONARD, Émile G.Op.Cit.p58.
35FORSYTH, William B. Jornada do Império. São José dos Campos: Editora Fiel, 2006.p.175 – 178. Exemplificando a crítica social, além da indicação da obra em nota de rodapé, está documentado na dissertação de mestrado de Douglas Nassif (ministro congregacional), apresentada na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), o relato da classe de Escola Dominical (catequese) que o Dr. Robert Raid Kalley ministrou a homens negros em agosto de 1855. Trinta e três anos antes da abolição da escravatura (1888), evidenciando seu compromisso com os excluídos da sociedade (Cf. CARDOSO, Douglas Nassif. Op.cit. p.113). Em seu passado, na Ilha da Madeira (pertencente a Portugal), o médico escocês tornou-se conhecido pelo atendimento aos mais pobres, oferecendo consultas gratuitas, organizando também escolas populares que matricularam milhares de pessoas. Seu trabalho como missionário legou aos madeirenses a primeira igreja presbiteriana na Ilha, organizada (sob a liderança de outro ministro) em abril de 1846 e presente até os dias de hoje.
36
LÉONARD, Émile G.Op.Cit.p58.
37FORSYTH, William B. Op.Cit.p.169-170.
38SANTOS FILHO, Hildebrando Costa. Centenário de Organização Denominacional da UIECB (1913 – 2013). São Gonçlao: Contextualizar, 1913.
39SANTANA FILHO, Manoel Bernardino. 100 Anos de Ensino Teológico: História e Missão do Seminário Teológico Congregacional do Rio de Janeiro (1914 – 2014). São Gonçalo: Contextualizar, 2014.p.31.

SUGESTÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR

 

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Idauro de Oliveira Campos Júnior

Idauro de Oliveira Campos Júnior

Professor de História da Teologia Cristã e História do Protestantismo Brasileiro. Pastor da Igreja Congregacional de Niterói (RJ) e Mestre em Ciências da Religião com especialização em Teologia Contemporânea e pós-graduando em História da Igreja.  É casado com Sandra e pai de Simone.

 

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