Ministério

Tirar férias é bom para o pastor: o local do descanso no ministério pastoral

20/09/2016 09:55:10

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Tirar férias é bom para o pastor: o local do descanso no ministério pastoral Introdução

Pastores se cansam e se afadigam; e muitos de exaustos caem. É claro que os que esperam no Senhor renovam as suas forças. Mas o que significa esperar no Senhor se não ter fé no seu cuidado e obras que fluem de tal fé? E que são as obras, neste caso, se não seguir o padrão dado pelo próprio Deus sobre descansar além de trabalhar?  Não são poucos os que abandonam o ministério a cada ano; outros acabam não saindo, mas veem sua saúde, família e mesmo o próprio ministério ruírem estrondosamente por causa da falta de descanso.1 Essa estafa ocorre com pastores ordinários como eu e você leitor, bem como com os extraordinários com Charles Spurgeon.2 Neste breve artigo examinaremos um pouco do que Deus espera do ministro do evangelho em termos de seu descanso. Trataremos de razões porque pastores trabalham mas não descansam.

Sei muito bem que ministério pastoral não é um piquenique no jardim botânico rodeado de borboletas; há diversos desafios que acompanham os deleites ministeriais. Diversos deles são auto-inflingidos. Orgulho, ganância, imoralidade, preguiça e vários outros males acometem inúmeros ministros do evangelho; muito do sofrimento pastoral envolve a mortificação do velho homem. Não pretendo ser exaustivo aqui neste artigo acerca e tratar de todos os possíveis males do pastorado, mas focar nessa questão do descanso.3 É claro, entendo ainda que o sofrimento é parte da amorosa forja de Deus para seus ministros;4  mas parece-me que por vezes pastores trazem sobre si sofrimentos desnecessários por falta de sabedoria no agir quanto ao descanso, e nisso desonram o nome de Deus.

Mas será que os pastores estão mesmo exagerando no trabalho ministerial? Pergunte por aí e não faltarão histórias. Facilmente me lembro de algumas. Amigos que todas as semanas acabam utilizando seu dia de folga para aconselhamentos ou preparação de sermões. Amigos que viajam de férias para a praia mas levam junto material de pesquisa para um artigo ou livro que precisa sair neste ano. Amigos que ao viajar de férias ativamente tentam arrumar um lugar para pregar nos domingos nas cidades onde estarão. Amigos que simplesmente não tiram férias. Ou, no máximo, quando saem da igreja, arrumam alguma outra obra a fazer, seja com uma agência missionária, uma instituição de ensino ou seja o que for. Amigos que passam os feriados e as folgas pastorais “tirando o atraso” do serviço que foi acumulando.

Mas qual é o problema disso? Deus não espera que o obreiro se desgaste na sua obra? Não é parte de imitar a Cristo? Sim, sem dúvida. A Bíblia nos ensina que o ministério pastoral é por natureza desgastante e envolve consumir a vida. Mas isso não deve ser feito às custas de sua família. E ser fiel não significa ficar morto de cansado. Paulo, ao ensinar Timóteo os critérios para se escolher novos líderes para a igreja, insistiu que deveriam ser homens que já tivessem provado seu cuidado com sua própria casa (1Tm 3.4,5); afinal, se nem de sua casa cuidam, como cuidarão da casa de Deus? Ao mesmo tempo, é assombroso ver quantos filhos de pastores abandonam a igreja; quantas esposas de pastor vivem amarguradas e desgostosas com o povo de Deus. É claro, muitas vezes a igreja tem enorme parcela de culpa, trataremos disso adiante. Mas infelizmente os próprios pastores acabam tomando decisões que prejudicam, a curto ou longo prazo, a saúde espiritual de seus familiares. Ironicamente, tentam fazê-lo pelo bem do ministério, mas nisso se desqualificam para o próprio ministério.

A qualificação dada por Paulo a Timóteo sobre o bom exemplo do pretendente ao ministério no que diz respeito à sua casa muitas vezes é abandonada. As dinâmicas ministeriais envolvem a família de maneira que outras vocações não o fazem. O bom cuidado com família não é apenas um carimbo no diploma do candidato ao episcopado, mas o melhor dos campos de treinamento que ele pode ter. Como irá lidar com desinteresse, insubmissão, diferença de ideias, encorajamento e repreensão na igreja se nem no lar ele consegue fazer isso bem? A família traz desafios peculiares que servem para afiar o homem de Deus. Ronaldo Lidório diz:
“O nosso lar é nosso primeiro desafio, e é onde devemos investir energia e tempo e desenvolver um relacionamento construtivo...Os ministros possuem o privilégio de terem a vida vinculada ao ministério. Por outro lado, se não houver certo controle, esse privilégio se transforma em um peso. Os ministros não são como bancários, que num determinado horário do dia saem do trabalho e vão para casa. O trabalho de um ministro está em todo lugar, e principalmente em casa.”5
É bem possível que haja famílias de pastor que nunca tenham o visto de fato descansar. Na era de smartphones e redes sociais isso pode ser ainda mais grave. Além da família, vale considerar a própria saúde e produtividade do pastor. Como meu cardiologista gosta de me dizer: “Quem não arruma tempo para cuidar da saúde, vai ter de arrumar para cuidar da doença”. Ou como falou Robert Murray M’Cheyne acerca de seu corpo e saúde: “Deus me deu uma mensagem para entregar e um cavalo para montar. Entretanto, eu matei o cavalo e agora não posso mais entregá-la.”6  M’Cheyne teve um profícuo ministério nas Escócia; mas grandemente encurtado pelo excesso de trabalho, pelo peso exagerado colocado no cavalo. Morreu com meros vinte e nove anos. Quanto mais ele teria produzido caso tivesse vivido mais algumas décadas? Talvez seus melhores anos ainda estivessem diante dele.7

O fato é que muitos pastores são ministerioholics. Trabalham mais do que deveriam. Mas por que isso? Não entendem que descansar é bom para pastor?

I - Razões pelas quais pastores não descansam

Mas por que não descansar? Por que ficar arrumando coisa para fazer nas férias e folgas? Tratemos de algumas razões, que por certo não serão todas as possibilidades debaixo do sol, apenas algumas que identifiquei: 

1) Preocupação em fazer um bom trabalho.  Ministério é, em si mesmo, frequentemente exaustivo. Fazer bem feito as funções ministeriais será necessariamente cansativo.  “Quantas vezes, nas noites do dia do Senhor, nós nos sentimos como se a vida se nos esvaísse por completo! Depois de despejar as nossas almas sobre nossos ouvintes sentimo-nos como um jarro vazio que uma criança poderia quebrar.”8 É claro, aquele que ministra e ensina deve se esmerar e se dedicar (Rm 12.7) e há enorme desgaste no pastoreio.9 Nenhum pastor sério deseja desonrar e desagradar o seu Senhor. Por vezes as horas extras gastas em aconselhamento, as diversas ligações e conversas eletrônicas feitas com o pé na areia da praia e as noites na frente do computador ao invés de na cama com a esposa, podem ser meramente motivadas pelo bom e justo desejo de agradar a Deus e fazer um bom trabalho. Mas o anseio correto não faz com que a prática seja correta.

2) Preocupação com o rebanho. Por certo não é possível ser pastor fiel de um rebanho e não se importar com ele. Ao menos não um pastor nos moldes bíblicos. Se não chorarmos com os que choram estaremos falhando em imitar a empatia do bom pastor. Todo pastor sabe que ao trancarmos o gabinete no final do dia, as agruras dos que estão sob nosso cuidado não somem do coração; continuam pesando. Branqueiam a barba, aceleram o peito, enrijecem as costas, embaralham a vista, anuviam o coração.  E é difícil para um pastor deixar de lado as ovelhas que ele sabe estarem sofrendo. O ponto não é esse; não estou defendendo insensibilidade pastoral; mas uma sensibilidade que comece em casa. Pois muitas vezes a preocupação com o rebanho (que é correta) acaba por sobrepor o cuidado com a família, e isso é perverso. Muitas vezes isso vem de um senso errôneo de ser absolutamente necessário, de esquecer que somos meros ministros do bom pastor, e não o próprio. Isso é perigosamente próximo de pensar de si mesmo além do que convém (Rm 12.3).

3) Insensibilidade quanto à família. Infelizmente muitos estão preocupados com seu ministério de tal maneira que se esquecem da responsabilidade para com aquela que é que carne de sua carne e aqueles que são as flechas em sua aljava. E ainda a honra devida aos seus pais na velhice. São insensíveis às pressões que a família passa; como, por exemplo, as cobranças por viverem no aquário da vida pastoral, com cada passo e cada ausência sendo notados e esquadrinhados. Minha família sente minha falta. Eles, por incrível que pareça, gostam de mim e minha companhia. E facilmente minhas atividades ministeriais podem roubá-los das raras oportunidades que teríamos juntos. Tenho apenas quatro domingos no ano em que não tenho responsabilidades ministeriais: os domingos em que tiro férias. Preciso aprender a nesses míseros quatro domingos, sentar com minha família nos bancos, ajudar minha esposa a ensinar minha filha a cantar e prestar atenção na mensagem. Segurar a mão de minha mulher enquanto ouvimos a proclamação de Cristo. Cantar lado a lado com ela e a multidão dos santos. Elas por certo sentem falta. Não devo privá-las disso. Aliás, é estranho que o pastor não anele por ter momentos como esses.

4) Um senso de que nosso valor está no ministério, quando deveria estar em Cristo. Somos seres que tendem à idolatria. Tendemos a forjar ídolos em nosso coração, como Calvino costumava dizer. E a aprovação pública, o senso de ser reconhecido e valorizado facilmente se torna um ídolo para o pastor. Ao invés de termos nossa justiça e valor em Cristo, queremos ser validados pelo nosso ministério e reconhecimento que vem com ele. O pastor pode facilmente ser movido por ter suas citações e sermões compartilhados nas redes sociais, ver sua foto e nome em cartazes de conferências, ser reconhecido na rua. Muitas vezes o coração anseia por essas fagulhas de valorização e são as únicas coisas capazes de animar a semana pastoral, tão cheia de agruras. Assim, para muitos é difícil sair dos holofotes. Passar dias ou mesmo semanas sem receber elogios, se ver em evidência e ter seu valor reforçado pode ser excruciante para quem aprendeu a colocar seu valor no ministério. Note, não são apenas os pastores famosos que sofrem disso. Pastores comuns e desconhecidos fora de seus pequenos contextos locais também podem se orgulhar indevidamente do que produzem. Seja de um sermão, uma reunião, um projeto eclesiástico. Podemos tentar compensar o senso de que não somos muito importantes por meio de fazer coisas que soam importantes. É fácil irmos por um caminho de, como alerta Wadislau Gomes: “cultivar nossa personalidade, guardar nossos direitos, crescer em abastança e poder, e multiplicar feitos que assegurem a memória do nosso nome.”10

5) Expectativas irreais de produtividade (por parte do pastor). Pastores muitas vezes botam mais no prato do que conseguem comer, o que contraria a boa educação dada pelos pais. Tantos colegas estão fazendo mestrado, escrevendo livros e artigos, participando de conferências, envolvidos nas questões denominacionais...e eu mal consigo preparar meu sermão de domingo. Muitos pensam estar ficando “atrás da curva” se não estiverem atingindo os mesmos objetivos que seus pares. Assim o pastor pode facilmente ser tentado a negociar o tempo de descanso a fim de finalmente obter aquele grau acadêmico ou conseguir colocar seu nome num cartaz de conferência. Facilmente assumimos muito mais compromissos do que somos capazes de lidar; não queremos dizer não, e por vezes nos vemos com dois sermões, cinco aconselhamentos, reunião do conselho, evento dos adolescentes, visita a um recém-nascido e uma senhora na UTI, um artigo para o boletim e outro para o jornal denominacional...e menos de uma semana para lidar com tudo isso. Somos tímidos para dizer não, pode ser por vergonha, timidez, por desejo de agradar... ou mesmo por sermos irrealistas quanto à nossa capacidade de produzir. “Muitas das nossas dificuldades pessoais, interpessoais, e, neste caso, ministeriais, são causadas pela vaidade.”11 Queremos ser valorizados pelos nossos feitos, e frequentemente superestimamos nossa capacidade.

6) Pressões da igreja – expectativas irreais de produtividade por parte da igreja.
A maioria das igrejas não tem noção do que está realmente envolvido no trabalho pastoral. Não sabe quantas horas se gastam na preparação adequada de um sermão expositivo. Não entende como é difícil se recuperar do aconselhamento, por exemplo, com um casal cujo casamento está se esfacelando e já partir para outra atividade ministerial. Não imaginam as pressões que se passam em seu coração. Não sabem do desgaste de ter de toda semana sem falta preparar ao menos um sermão que seja claro, articulado, profundo e imaginativo. Além do desconhecimento de boa parte dos membros acerca de como é o trabalho pastoral, isso é agravado por características eclesiásticas do nosso país. O clericalismo da igreja protestante brasileira por certo contribui para esse problema. Servi junto à Igreja Presbiteriana da América (PCA) por alguns anos, e ao menos na amostragem que tive, vejo que as ovelhas não exigiam dos pastores que eles fizessem coisas como acompanhá-las a consulta médicas, levá-las para fazer compras e buscá-las no aeroporto (situações reais pelas quais passaram pastores que conheço). Parte disso é a entranhada ideia de que o pastor trabalha somente no domingo, logo deve ter tempo livre para ajudar nessas coisas.  Além disso, parece-me que no Brasil há a ideia comum de que o pastor tem oração mais forte, conselho mais firme, presença mais espiritual. Assim não querem um diácono aconselhando sobre o buraco financeiro em que se meteram; querem o pastor. Não aceitam uma visita do presbítero quando nasce o neném; querem o pastor. Não se contentam que dezenas de irmãos os visitem e orem por eles no hospital; querem o pastor. Muitos infelizmente pensam que pastores passam a semana fazendo nada, à disposição de quem precisar. E pastores diversos contribuem para essa imagem. Alguns por de fato não fazerem nada, reconheço. Outros por aceitarem tudo isso sem manifestar a sua impossibilidade. O cansaço causado pelas expectativas irreais não fica apenas no próprio pastor. Além disso, “expectativas irreais por parte da congregação podem causar grande estresse à vida da esposa do pastor... E, se, além destas e outras pressões, ela sentir que seu esposo está sendo negligente com ela, o fardo pode se tornar insuportável... Minha esposa precisa da segurança de que ela é mais importante para mim do que meus ministérios na igreja.”12

7) Falta de saber delegar trabalho– Esse motivo pode ter em si razões mais sombrias, como o desejo por glória ou mesmo pode se tratar de um dominador do rebanho (1Pe. 5.1-3). Mas o fato é que há pastores que são incapazes de delegar as mais simples funções. Será mesmo que dentre os 200 membros da igreja não tem um capaz de fazer o boletim? E se não tiver, será tão importante assim ter boletim a ponto de valer o tempo do pastor que deveria ser dedicado a outras coisas? Não tem um capaz de alimentar o website? De escolher o cardápio para a ceia de ano novo? Muitos pastores acabam micro gerenciando tudo isso. E assim se perde a ideia maravilhosa de Atos 6. Há coisas que os pastores13 foram chamados e extensivamente treinados a fazer, como o ministério da palavra. É razoável que deixem isso para formatarem boletim? Talvez alguns tenham uma visão pequena do ministério da pregação e de fato tenham de arrumar essas coisas para se ocuparem. Mas a maioria dos pastores sérios já tem a priori, boa parte de sua semana bloqueada com horas de oração e preparo de seus sermões. Sem delegar diversas funções, muitas das quais nem deveriam ser dele em primeiro lugar, será impossível desempenhar bem o resto e ainda descansar adequadamente.

8) Preocupações financeiras com a família – Por vezes isso pode ser movido por anseios pecaminosos por luxos desnecessários. Ou por um descontentamento que não agradaria a Paulo (Fp 4.10-13), uma ganância que espantaria a Tiago (Tg 4.2-4) e a Paulo (1 Tm 6.9) ou uma incredulidade que desobedece a Jesus (Mt 6.25-34). Mas muitas vezes o fato é que igrejas são irresponsáveis no cuidado material dos seus pastores. A relação entre pastor e igreja deveria ser entendida em termos pactuais. Pacto no que diz respeito a dar e receber (Fp. 4.15). Gosto da forma que é feito chamado pastoral nas igrejas locais da Igreja Presbiteriana da América. Quando convidam um pastor para assumir seu pastoreio, o costume envolve produzir uma espécie de documento pactual onde as duas partes se comprometem. O pastor se compromete a se dedicar integralmente ao cuidado espiritual daquela igreja local. E aquela igreja local se compromete a cuidar integralmente das necessidades materiais do pastor e sua família, a fim dele se ver livre de preocupações deste mundo e poder cuidar espiritualmente bem deles.  É um associar-se no que diz respeito a dar e receber. O pastor se dedica a partilhar dos mistérios espirituais de Deus e o povo partilha com ele das benesses materiais que recebem de forma que ele possa servi-los bem, sem ter de arrumar bicos ou outras formas de sustentar sua família.

9) Falta de gente para trabalhar. Por vezes simplesmente não há outras pessoas qualificadas na igreja para ajudar, por exemplo, no aconselhamento. São inúmeras as necessidades de aconselhamento na igreja, e há uma boa parcela que pode ser feita por homens e mulheres experientes (At 20.28; Tito 2.3,4). Mas muitas vezes igrejas são deficientes de pessoas biblicamente qualificadas. Pode ser que em certos casos não haja ninguém que possa ajudar na administração, na diaconia, na música. E acaba sobrando tudo para o pastor. É claro, uma coisa é chegar numa igreja e se deparar com esta situação; outra é depois de dez anos de pastoreio não ter treinado ninguém nem promovido a maturidade e eleição de oficiais. Frequentemente a forma de agir do pastor acaba perpetuando a excessiva dependência dele e desestimulando o surgimento de novos líderes, violando assim um princípio bíblico sobre a importância de treinar sucessores (2Tm 2.2).

10) Mau planejamento. Muitas vezes o que ocorre é que o pastor usa mal sua agenda, se é que a utiliza. Gastam muito tempo no início da semana fazendo coisas inúteis ou irrelevantes, e se veem atabalhoados na quinta-feira. Exageram na marcação de compromissos de aconselhamento assumem mais responsabilidades do que dão conta. E a folga pastoral acaba sendo usado corriqueiramente para apagar os incêndios ministeriais. É claro, por vezes o pastor pode também ser culpado de usar o seu tempo de maneira ruim; discussões infrutíferas nas redes sociais, acompanhando notícias efêmeras, procurando pokemóns, ou seja qual for o seu passatempo favorito, ocupando preciosas horas do dia útil e levando a trabalhar na folga.

III - O que fazer a respeito?

1. Convencimento do pastor
Primeiro de tudo, o pastor precisa entender a necessidade de seu descanso. Se o próprio pastor não estiver convencido disso, mesmo com os apelos familiares e dos outros líderes ele facilmente irá burlar o descanso.  Talvez alguns sejam convencidos apenas quando forem parar na emergência com taquicardia. Ou quando seu filho jovem estiver envolvo em drogas e promiscuidade. Ou quando a esposa “inexplicavelmente” pedir o divórcio. O fato é que, por diversas razões, muitos pastores acham que são capazes de viver um ministério irreal e destrutivo em termos de horas e quantidade de dedicação. É preciso renovar a mente pastoral no que diz respeito a seu entendimento de vocação. A primeira vocação do pastor é ser cristão; em seguida ser marido, depois pai e apenas então pastor.14 E a organização de tempo e atividades tem de levar isso tudo em conta.

"Pastores seguem com comportamentos destrutivos para sua saúde e família, mesmo tendo claras evidências de que as coisas não vão bem. Talvez isso esteja ligado à hagiografia que fazemos acerca da produção ministerial de alguns dos gigantes. Muitas vezes, ler o material de Richard Baxter e outros luminares, pode fazer com que tenhamos expectativas irreais sobre o que podemos alcançar. Ler sobre o que Baxter fazia em Kidderminster pode ser impressionante e animador; mas também pode ser paralisante e danoso. Seu ritmo de visitas, de ensino, de catequese e assim por diante, nos soam como o grande alvo heroico do pastor, ao mesmo tempo em que nos intimida. Além disso, nossos professores de seminário e colegas mais velhos muitas vezes usam tais exemplos para nos impressionar. Podemos ficar com a impressão de que apenas tendo o mesmo ritmo de Baxter estaremos sendo fiéis a nosso chamado, sem levar em conta as diferenças culturais e mesmo de dotação entre nós e ele. Mas vale lembrar de três fatores:"
1. Só houve um Baxter. Você não é tão capaz quanto Baxter. Ele é famoso justamente por ser extraordinário.

2. O contexto rural em que ele vivia é muito diferente do nosso. Baxter não gastava uma hora de ida e uma hora de voltar preso no trânsito para ir até a maternidade visitar a família que ganhou neném." A vida era ocupada, é claro, mas não como no contexto urbano de grandes metrópoles do século 21. Em muitas de nossas cidades as famílias só chegam em casa da jornada de trabalho após as 19h30 ou mais. O modelo baxteriano é impraticável em muitos contextos contemporâneos.

3. Baxter mesmo recomendava que as igrejas não fossem maiores do que cada pastor poderia cuidar adequadamente. A nossa realidade é muitas vezes diferente disso. Em vários contextos pastores tem pouca ou nenhuma ajuda para cuidar de mais membros do que ele é capaz. 
O ideal de seguir os gigantes pode ser muito danoso. A esmagadora maioria de nós pastores não será lembrada daqui a duas ou três gerações. Não vão escrever biografias a nosso respeito. Não viraremos nome de rua ou de edifício de educação religiosa. Seremos meros pastores ordinários. E não há nada de mal nisso. A grande maioria de nós recebeu poucos talentos; e Deus quer que sejamos fiéis no que recebemos, sem agir como se tivéssemos mais do que temos.

Além disso, esquecemos facilmente o preço que a grandeza ministerial desses homens pode cobrar. É fácil ler a biografia de George Whitefield e ficar maravilhado com as multidões vindo ouvi-lo pregar... e quem sabe comparar com as duas dúzias de gatos pingados que aparecem para nos ouvir. Mas será mesmo que queremos ter um ministério como o de George Whitefield? Se tornar um dos grandes pregadores da história, mas ao custo da devastação de seu casamento? Whitefield pecou em negligenciar sua esposa. E seria mais fiel ter pregado menos vezes e ter cuidado de seu lar.15 

Pastores tem de se convencer que é bom e bíblico cuidar do corpo, da saúde. Não matar o cavalo que Deus nos deu para carregar a mensagem adiante.

Spurgeon alerta:
“Ficar sentado muito tempo numa só posição, com os olhos fitos num livro ou movendo uma caneta, é, em si mesmo, fatigante à natureza; porém, acrescentem-se a isto um quarto mal ventilado, um corpo que passou muito tempo sem exercício muscular, um coração sobrecarregado de preocupações, e teremos todos os elementos necessários para arranjar um fervente caldeirão de desespero, principalmente nos sombrios meses de cerração.”16
Somos chamados a descansar; aplicar o princípio sabático em nossas vidas. Wadislau Gomes alerta: “Na vida ministerial, corremos o risco de nos envolver com as obras pastorais, esquecendo de nos deixar pastorear pelo supremo Pastor. Se isso ocorre, como poderemos pastorear o rebanho de Deus?”17 Nosso trabalho é o de representar Jesus Cristo; não o de assumir o lugar dele. E ele nos ensinou no 4º mandamento que precisamos parar. Isso é humildade, dependência, alegria em saber que ele prove mesmo quando não trabalhamos para isso. O princípio do descanso sabático nos lembra de nosso lugar. No contexto do Antigo Testamento, o trabalho no sábado “era ridicularizado como tolice, pois seus resultados eram nulos; ele falha em reconhecer que Deus supre o que é preciso.”18 David Naugle por sua vez explica que “O princípio do sábado é, portanto, um memorial as atividades divinas de criar e recriar. É uma reencenação do que Deus fez (criação)19 e o que Deus está fazendo (nova criação.)”  Descansamos na sua providencia nos alegrando sobre o que ele já fez e no que fará. O sábado (agora Dia do Senhor) é um princípio criacional em que o ser humano aprende um ritmo de descanso e trabalho que o ensina acerca de sua pequenez, da grandeza de Deus e do descansar na provisão dele.

Quando o homem se envolve em lazer, ele está replicando em suas subcriações o que Deus fez ao criar o mundo, em imitação ao que Deus fez, ele insere o princípio do descanso. No lazer o ser humano é capaz de parar e deleitar-se no que foi feito. Leland Ryken explica: “Como no descanso de Deus, o lazer nos liberta da necessidade da produtividade e nos permite, ao invés disso, aproveitar o que já foi feito.”20 O pastor que é incapaz de parar, descansar e ter lazer está em falta de diversas maneiras. Em falta por não obedecer ao mandato criacional de descansar. Em falta por achar, ainda que inconscientemente, que o mundo e a igreja precisam dele como se ele fosse Deus. Em falta por perder a oportunidade de dar graças a Deus pela provisão e treinar seu coração e corpo para descansarem no Senhor. Em falta por não modelar para sua família e ovelhas o que é depender de Deus no descanso e na atividade.

Deus nos fez com necessidade de descanso; precisamos parar. Somos homo ludens, não apenas homo faber.21  O lazer é parte legítima e desejável de nossas vidas, não apenas o trabalho. Não tenho espaço para fazer uma defesa da necessidade de lazer. Mas, de qualquer forma, parece-me algo cuja legitimidade os pastores aceitam tacitamente, ainda que não o implementem.22 Charles Spurgeon nos chama ao enorme benefício de tempos de refrigério:
“Aquele que esquecer o zumbir das abelhas na urze, o arrulho dos pombos selvagens na floresta, o canto dos pássaros no arvoredo, o ondular do regato por entre o junco, e os lamentos do vento entre os pinheiros, não tem porque se espantar caso o seu coração olvide cantar e sua alma fique pesarosa. Passar um dia respirando o ar fresco das montanhas, ou fazer uma excursão de algumas horas na umbrosa tranquilidade das copadas faias, servirá para varrer as teias de aranha das cabeças cheias de vincos dos nossos fatigados ministros que já andam meio mortos. Uma tragada de ar marinho, ou uma firme caminhada contra o vento, não dará graça à alma, que é o que há de melhor, mas dará oxigênio ao corpo, coisa que vem em segundo lugar.”23
Por certo o príncipe dos pregadores não se oporia a que eu incluísse outras atividades como sendo também úteis para revigorar o coração. Andar descalço na areia da praia, ir ao cinema com a esposa, jogar videogame com o filho, suar a camisa atrás de uma bola com os amigos, puxar ferro na academia, passear de caiaque no lago. São inúmeras as formas em que o desfrute da corporalidade e da criação se mostra frutífero e reanimador. Dormir também conta.

Descanso e lazer têm de ser presentes na vida pastoral. Caso surjam as necessidades urgentes, a família deve aprender a entender e até a amar este aspecto do ministério. Mas, por exemplo, se um familiar tem seu passeio com o pastor frustrado por uma emergência eclesiástica, o pai/pastor/marido deve desenvolver a boa conduta de pedir perdão e de buscar “compensá-lo de forma razoável, intencional e em tempo oportuno.”24  Mas o pastor não pode estar com eles apenas se sobrar tempo; ele tem de ser guardião do tempo familiar. Deve ser parte importante de sua agenda fixa.

Tedd Tripp diz:
“Você também tem de guardar um tempo para sua família, ou não terá mais nenhum tempo junto deles. Esteja certo de organizar sua vida e seu ministério de forma a garantir um tempo com sua família. Eles precisam de tempo com você. Tempo para brincar e para os pequenos prazeres de estarem juntos...”25
Confiar no Senhor envolve confiar no que ele diz acerca de como funcionamos. E funcionamos com períodos de descanso entre períodos de trabalho. Negar isso é negar o desígnio humano feito por Deus. Conrad Mbewe, num ótimo artigo sobre o cuidado que o pastor tem de ter de si mesmo, conta a história de um ministro completamente desanimado com a vida e o ministério, seco espiritualmente que buscou auxílio do Dr. Martyn Lloyd-Jones. O velho pregador galês meramente sugeriu que ele tirasse boas férias. O pastor em questão não ficou muito satisfeito, mas acatou o conselho. E voltou completamente revigorado. “A lição que aprendera foi muito simples—todas as áreas de sua vida estão interligadas. Este homem havia negligenciado o descanso físico e emocional, e isto teve um efeito visível em sua vida espiritual.”26  Note o que Mbewe está dizendo; a qualidade ministerial do pastor foi afetada pela falta de descanso. Assim, se o pastor não se preocupa com seu bem estar e nem de sua família,27 no mínimo deveria descansar a fim de ser um ministro mais profícuo.

2. Convencer o conselho (liderança)

Havendo mudança de mentalidade, o pastor precisa levar isso aos outros líderes. Muitas vezes presbíteros28 são surpreendidos ao descobrirem que seus pastores estão caindo de exaustos e pensando em deixar o ministério. É preciso conversar e explicar suas limitações e o que o ministério excessivamente pesado anda fazendo com o ministro e sua família.

Muitas vezes o relacionamento entre o pastor e o restante da liderança não é nada sadio. E as exigências a respeito do trabalho do pastor são frequentemente exageradas e não-realistas. O pastor precisa achar formas de mostrar ao conselho (ou equivalente) que ele tem responsabilidades de descanso pessoal e de tempo com os familiares. E de fato não ceder às pressões. Esse tipo de situação deve ser conversado antes de aceitar o convite ara pastorear a igreja. Muitos pastores se constrangem em tratar desse tipo de coisa, talvez por temerem parecer mundanos. Mas biblicamente falando, trata-se de algo de profunda importância espiritual.

A liderança precisa ser parceira do pastor nessa proteção a seu descanso. Uma das maneiras é dividindo a carga de pastoreio. Recrutando outros membros para ajudar em tarefas que não sejam de alçada exclusiva do pastor. Verificando se a remuneração está adequada. Sendo sensível à possível necessidade de contratar pastores auxiliares. Se envolvendo ativamente nas tarefas de pastoreio. Paulo esperava que os presbíteros de Éfeso pastoreassem o rebanho (At 20.17-35), não apenas que supervisionassem a contratação de um pastor e que o entupissem de tarefas. O resto da liderança é essencial para proteger o descanso do pastor. Devem fazer isso, primeiramente, se dispondo a ombrear com o pastor a fim de carregar as cargas ministeriais. Além disso, é importante que a liderança da igreja esteja comprometida com o bom cuidado de quem cuida deles Paulo se alegrou quando os Filipenses demonstraram interesse em cuidar de suas necessidades físicas. Não basta o pastor estar convencido. Será muito difícil ao pastor conseguir descansar adequadamente se ele não for protegido e apoiado pelos esforços do resto da liderança. E juntos precisam ensinar a igreja sobre isso. Parte do ensino do pastor acerca da vida da igreja envolve ensinar que um homem sozinho irá acabar por desfalecer se levar a carga sozinho, como Jetro alertou a Moisés (Ex 18). O pastor precisa dedicar tempo a treinar novos líderes capazes de melhor dividir a tarefa.

3. Convencer e ensinar a igreja

Alguém tem de ensinar a igreja sobre essas coisas. E, embora seja desconfortável, tem de ser, ainda que não exclusivamente, o próprio pastor. Afinal, isso é parte de ensinar todo o conselho de Deus, treinar o povo acerca do cuidado mútuo entre pastor e ovelhas. Sim, há barreiras históricas, culturais e mesmo denominacionais para isso.  Pode ser que não surjam frutos logo no início, pode ser que sejam necessárias duas ou três sucessões pastorais para que essas ideias sejam impregnadas na mente do povo. Mas vale a pena fazê-lo, ainda que os beneficiados sejam apenas seus sucessores. Por vezes é outro que colhe o que plantamos e regamos.

4. Mas como implementar mudanças concretas?

Folga pastoral é uma boa prática. Como Spurgeon coloca: “Nossos sabaths—nossos domingos—são os nossos dias de trabalho, e se não descansarmos nalgum outro dia, ficaremos prostrados.”29  Felizmente boa parte das igrejas concede folga pastoral para o pastor em um outro dia na semana. Mas o pastor precisa levar a sério esse compromisso de descansar; e não arrumar atividades ministeriais.

Outra forma de diminuir o fardo é delegando tarefas que não precisam ser feitas pelo pastor, o paradigma de Atos 6. Há diversas coisas que são desnecessárias e podem facilmente ser delegadas. Um exemplo simples é o famigerado artigo semanal para o boletim. Embora seja curto, algo em torno de 800 a 1000 palavras, pode levar um tempão para escrever. Entre selecionar o tópico, pesquisar, escrever e revisar, pode-se perder uma tarde toda. Por que não utilizar trechos advindos de pequenas reflexões de autores como Calvino e Spurgeon? Há ampla oferta destes a partir de devocionários e material online. Quando o pastor sentir necessidade de comunicar algo mais contundente à igreja, pode ele mesmo escrever. Mas mudar esse costume por certo é algo que economiza um bom tempo.

Outra grande fonte de desperdício de tempo é o gabinete mal planejado. Estes podem também facilmente consumir o pouco tempo de folga do pastor. Estabelecer uma agenda fixa de horários pode ser uma boa prática. Uma situação comum é o pastor abrir exceção no seu dia de folga, pois certa ovelha pediu ajuda e ela “só pode naquele dia”. Ou então só pode de noite num horário em que o pastor estaria com a família. Como fazer? Em minha experiência de pastorado, tenho notado que muito raramente a pessoa realmente só pode naquele dia ou naquele horário. O que ela está querendo dizer, em geral, é “para mim fica conveniente nesse dia ou horário.” O que o pastor geralmente faz é sacrificar sua folga, sua noite com família ou seja o que for. Mas essa mesma ovelha se sujeita com tranquilidade aos horários de atendimento do médico e do dentista. Chega mais tarde no trabalho, perde o horário de almoço, pede para alguém pegar o filho na escola, etc. Aliás, mais de uma vez descobri que a pessoa não podia vir mais cedo falar comigo sobre a tal questão de vida ou morte, pois tinha horário de pilates ou estaria no cinema (ou similar). Há a mentalidade de que o pastor é quem tem de se adequar à agenda das ovelhas, mas estas raramente se preocupam com a agenda pastoral. Além disso, muitos dos aconselhamentos pastorais são assuntos que facilmente poderiam ter sido tratados por outros membros experientes da igreja.30
 
As ovelhas precisam se acostumar que o pastor, embora não seja um médico com horários rígidos, tem outros afazeres e não está à disposição de quem deseja conversar a qualquer hora. A facilidade de acesso eletrônico ao pastor, embora possa ser uma enorme bênção, facilmente pode acabar na ideia de que o pastor está disponível para consultas o tempo todo. Penso que uma das chaves para uma prática mais sadia seja justamente entender que folga não é tempo livre. Se o tempo estiver livre, ele acaba sendo preenchido por compromissos supostamente urgentes. Mas se o pastor coloca na agenda na sua folga as atividades de descanso e desfrute individual e familiar, então ele não terá tempo livre.
Comprometa-se, por exemplo, a levar as crianças no parquinho no sábado de manhã. E se aparecer alguém de última hora pedindo para usar seu sábado de manhã para certa atividade ministerial, entenda que seu tempo não está livre. Você tem um compromisso familiar. Não é preciso dizer mais que isso. Cancelar a ida ao parquinho, o jantar a dois com a esposa, a visita familiar aos primos ou sogros, o cinema combinado, tudo isso acaba passando para esposas, filhos e igreja, a ideia de que a família é secundária. São raríssimas as situações ministeriais que de fato exigem que se abdique dos compromissos familiares. Obviamente, acidentes gravíssimos, falecimentos, situações de possíveis suicídios envolvem uma ação imediata. Mas a maior parte das dúvidas e tristezas das suas ovelhas pode tranquilamente esperar mais uns dias, ou ser direcionada a outro oficial da igreja.

Conclusão
Ronaldo Lidório sugere sabiamente que os filhos servem como bom indicativo a respeito do equilíbrio de trabalho e descanso: “um bom termômetro são os filhos. Eles precisam ter alegria ao ouvirem sobre o ministério. Devem participar das conversas e também um pouco da dinâmica. Se assim não acontecer, se o assunto for um peso ou um motivo de descontentamento, possivelmente algo está errado.”31  Imagino que não são poucos os filhos de pastores que desejariam que seus pais tivessem outra vocação. E não sejamos apressados em culpar os filhos, assumindo que a resposta se dá por impiedade.

O pastor é apenas um homem. Com limitações inúmeras próprias de humanos vivendo num mundo caído. Ele precisa se acostumar a viver como tal.Suas ovelhas e outros líderes têm de ajudá-lo nisso. O que está em jogo é muito valioso: o próprio entendimento de quem somos e de quem Deus é para nós. Pastores que vivem como se fossem super-heróis passam uma falsa mensagem para suas famílias e rebanhos. No final das contas, o pastor precisa inculcar de uma vez por todas a ideia de que descansar é ministério, cuidar da família é ministério. Isso é ser um servo bom e fiel; descansar é bem diferente de ser negligente. Jared Wilson sabiamente alerta:
“Pode soar nobre e piedoso o manter horário de funcionamento como de lojas de conveniência, mas é uma via-expressa para a exaustão física, assim como para um gradual ressentimento do rebanho. Um pastor sem limites tem um problema de idolatria, e ele está encorajando sua igreja a ter problemas de idolatria também. Bons pastores devem estar disponíveis para sua igreja, sim, mas maus pastores tenta estar disponíveis 24 horas por dia, 7 dias na semana. Leia com atenção: Você. Não é. Jesus. Pare de tentar ser. Somente Cristo é onipresente. Somente Cristo é onipotente.”32
O ministério é duro. Levamos o morrer de Cristo para que outros vivam. Não estamos negando isso. Apenas penso que o ministério já é duro demais sem que coloquemos sobre nossos ombros cargas desnecessárias, seja por nossa vaidade, por arrogância ou mesmo pela ignorância e impiedade do povo. Precisamos esperar no Senhor para renovação de nossas forças. E a atitude de fé é seguir o padrão de trabalho e descanso que ele mesmo ensinou; ainda que isso seja contracultural. Se fizermos melhor uso do tempo mandado por Deus de descanso e convívio familiar, seremos melhores pastores. Ainda que isso signifique falar em menos eventos e aconselhar menos pessoas. Afinal, como bem disse o Rev. Wadislau no final de um de seus livros: “Trocando em miúdos, a dignidade da vocação reside na coerência entre a nossa vida privada e vida pública.”33 Descansar é bom e necessário para o pastor. Sua vida e a de muitos pode depender disso.

Referências Bibliográficas

ASCOL, Thomas K. (Ed.) Amado Timóteo: uma coletânea de cartas ao pastor. São José dos Campos: Editora Fiel, 2005.
ESWINE, Zack. Spurgeon's Sorrows: Realistic Hope for Those Who Suffer from Depression. London: Christian Focus, 2015.
GAROFALO NETO, Emilio. “A busca humana da diversão sob a ótica bíblica de criação-queda-redenção.” Fides Reformata XVI, Nº 2 (2011): p. 27-49.
GOMES, Wadislau Martins. Quem cuida de quem cuida?. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2012.
HEINTZMAN, Paul. “Implications for leisure from a review of the biblical concepts of Sabbath and rest”. Em Christianity and Leisure: Issues in a pluralistic society, ed. Paul Heintzman, Glen E. Van Andel, e Thomas L. Visker. Sioux Center, IA: Dordt College Press. 2006.
LIDÓRIO, Ronaldo. Liderança e integridade. Ed. Betânia, 2008.
MBEWE, Conrad. “Tem cuidado de ti mesmo”. Artigo em Amado Timóteo: uma coletânea de cartas ao pastor. São José dos Campos: Editora Fiel, 2005.
MOORE, Doreen. Good Christians, Good Husbands? Scotland: Christian Focus, 2004.
NAUGLE, David K. 1995. “A biblical philosophy of sport and
play.” Department of Philosophy, Dallas Baptist University. Disponível em http://www.dbu.edu/naugle/pdf/sport_play.pdf
RYKEN, Leland. Work and leisure in Christian perspective. Portland, OR: Multnomah Press.1987.
SPURGEON, Charles H. Lições aos meus alunos. Volume 2 – Homilética e teologia pastoral. São Paulo: PES, 2ª Edição, 1990.
TRIPP, Tedd. “Ame tua família”. Artigo em Amado Timóteo: uma coletânea de cartas ao pastor. São José dos Campos: Editora Fiel, 2005.
WILSON, Jared. “Pastor, mind your RBM or risk burnout.” 2016. Artigo disponível em https://blogs.thegospelcoalition.org/gospeldrivenchurch/2016/01/19/pastor-mind-your-rbm-or-risk-burnout/

______________________________________
1Veja o capítulo sobre integridade na família no livro Liderança e integridade de Ronaldo Lidório (Ed. Betânia, 2008). Há cada vez mais atenção ao problema do esgotamento pastoral (burnout). Há websites e vários artigos de variadas linhagens eclesiásticas tentando lidar com o problema. Uma simples usca online trará diversos resultados.
2
Para uma boa discussão sobre o assunto, veja todo o capítulo 11 do livro Lições aos meus alunos-volume 2 de C.H. Spurgeon (Ed. PES). Para uma linda e proveitosa discussão sobre a depressão do próprio Spurgeon, veja o livro de Zack Eswine, Spurgeon's Sorrows: Realistic Hope for Those Who Suffer from Depression (Christian Focus, 2015).
3Permita-me sugerir três livros para lidar com aspectos diversos do chamado pastoral. O primeiro é de meu mentor e herói Wadislau Martins Gomes, Quem cuida de quem cuida (Ed. Cultura Cristã, 2012). O segundo é de Paul David Tripp, Vocação Perigosa (Ed. Cultura Cristã, 2014). Uma paulada. Por fim, a coletânea de artigos Amado Timóteo: Uma coletânea de cartas ao pastor traz valiosíssimos insights sobre múltiplos aspectos do ministério pastoral. Editado por Thomas K. Ascol (Ed. Fiel, 2012).
4Não seria o máximo ter o jeito de Spurgeon com as palavras? Veja essa descrição de como o ministério muitas vezes é ajudado pelas limitações e provações físicas. "Algumas plantas devem as suas qualidades medicinais ao pântano em que crescem; outras às sombras de que dependem para florescer. Há frutos preciosos que vicejam graças à lua, bem como graças ao sol. Os barcos precisam de vela e também de lastro; puxar uma carreta não é difícil quando a estrada desce morro abaixo. Provavelmente em muitos casos foi a dor que desenvolveu o gênio, dando caça à alma que doutra forma poderia ter ficado a dormir como um leão em sua cova. Não fosse a asa quebrada, alguns poderiam ter-se perdido nas nuvens..." Lições aos meus alunos, p.236.
5Lidório, Liderança e Integridade, p.67.
6Para mais informações sobre a vida e obra de M’Cheyne, ver o site www.mcheyne.info
7É claro, estamos aqui falando da morte prematura apenas da perspectiva humana. Na soberania de Deus ele quis levar gente como M’Cheyne, Calvino e Edwards muito cedo, antes da idade em que se costuma haver o grosso da produção escrita que dura séculos.
8Spurgeon, Lições, p.237.
9Leia 2Coríntios inteiro! Nesses dias conversando com meu colega Rev. Rodrigo Brotto, que está pregando sequencialmente nessa carta, ele me falava de como a cada semana o exemplo de Paulo serve para nos humilhar como pastores. Ser humilhado pela Bíblia é bom para pastor!
10Wadislau Gomes, Quem cuida de quem cuida, p.35.
11Wadislau Gomes, Quem cuida de quem cuida, p.41.
12Ascol, “Estabeleça prioridades”, artigo em Amado Timóteo, p.25,26.
13Sim, eu sei que Atos 6 é a respeito de diáconos auxiliando os apóstolos, e não os pastores. Mas assumo aqui que o ofício apostólico com suas prerrogativas cessou e que os pastores hoje são os que se dedicam ao ministério da palavra e oração. Os diáconos devem oferecer proteção a eles de maneira similar, absorvendo muito do choque de questões materiais e mesmo disputas pessoais como as de Atos 6, liberando os pastores para as suas funções espirituais.
14Ver discussão em Ascol, “Estabeleça prioridades”, artigo em Amado Timóteo.
15Para um livro tratando dos relacionamentos conjugais de Whitefield, John Wesley e Jonathan Edwards, procure o interessante livro de Doreen Moore: Good Christians, Good Husbands? (Christian Focus, 2004). O livro lida também com a questão do excesso de trabalho desses homens. Edwards foi bem sucedido na arena conjugal, diferente de Whitefield e Wesley.
16Spurgeon, Lições, p. 239.
17Wadislau Gomes, Quem cuida, p.78.
18Heintzman, Paul. “Implications for leisure from a review of the biblical concepts of Sabbath and rest”. Em Christianity and Leisure: Issues in a pluralistic society, ed. Paul Heintzman, Glen E. Van Andel, and Thomas L. Visker. Rev. ed. Sioux Center, IA: Dordt College Press, p.16
19David Naugle, “A biblical philosophy of sport and play.” Artigo preparado para o departamento de filosofia da  Dallas Baptist University. Disponível http://www.dbu.edu/naugle/pdf/sport_play.pdf 13.
20Leland Ryken, Work and leisure in Christian perspective. (Portland, OR: Multnomah Press.1987), p. 183.
21O brincar (ludens) é tão parte de ser humano como o fazer (faber).
22Ver meu artigo “A busca humana da diversão sob a ótica bíblica de criação-queda-redenção” Fides Reformata XVI, Nº 2 (2011): p. 27-49.
23Spurgeon, Lições, p.240.
24Ascol, “Estabeleça Prioridades”, p.27.
25Tedd Tripp. “Ame sua família” artigo em Amado Timóteo, p.55.
26Conrad Mbewe, “Tem cuidado de ti mesmo”, artigo em Amado Timóteo, p.35.
27Veja o capítulo “Ame sua família” de Tedd Tripp no livro Amado Timóteo.
28Aqui estou usando a terminologia apropriada ao sistema de liderança presbiteriano, pois sou pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Mas por certo isso se aplica a outras formas de estrutura de governo eclesiástico.
29Spurgeon, Lições, p. 243.
30Algumas situações que vão parar no gabinete pastoral poderiam facilmente ser resolvidas por um diácono. Por exemplo, situações de manejo financeiro, de organização orçamentária, de procura de emprego. Imagino que todo pastor já tenha aconselhando sobre essas coisas.
31Ronaldo Lidório, Liderança, p.68.
32Jared Wilson, “Pastor, mind your RBM or risk burnout.” Artigo disponível em https://blogs.thegospelcoalition.org/gospeldrivenchurch/2016/01/19/pastor-mind-your-rbm-or-risk-burnout/
33Wadislau Gomes, Quem cuida, p.120.

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Emilio Garofalo Neto

Emilio Garofalo Neto

Ministro presbiteriano e pastor da Igreja Presbiteriana Semear em Brasília, DF. Completou seu Ph.D no Reformed Theological Seminary, nos EUA. É professor de teologia sistemática no Seminário Presbiteriano de Brasília e professor visitante em teologia pastoral no CPAJ