Entrevista

A arqueologia do mundo bíblico: limites e descobertas

27/03/2017 15:30:00

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A arqueologia do mundo bíblico: limites e descobertas Matthieu Richelle é pós-doutor em Filologia Bíblica pela Universidade de Strasbourg, doutor em Ciências Históricas e Filológicas pela EPHE-Sorbonne e ex-aluno da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de vários artigos em jornais acadêmicos importantes e de livros, entre eles A Bíblia e a arqueologia. Atua como professor associado (Chargé de conférences) de Epigrafia Semítica na EPHE-Sorbonne e como professor titular de Antigo Testamento na Faculdade Livre de Teologia Evangélica (Vaux-sur-Seine).

Em março, Tiago Abdalla Neto, editor freelance de textos teológicos para Edições Vida Nova, teve a oportunidade de realizar a presente entrevista com o autor.

Matthieu, em primeiro lugar, parabéns por seu livro A Bíblia e a Arqueologia (La Bible et l’archéologie), que apresenta uma excelente introdução à arqueologia do mundo bíblico. Ele é claro, objetivo e também revela as limitações da pesquisa arqueológica. Agradecemos sua coragem em questionar alguns pressupostos considerados “básicos” pela academia simplesmente porque são defendidos por alguns nomes importantes nos campos da arqueologia e estudos semíticos.

1. Inicialmente, pedimos a você que nos diga a respeito de seu interesse em estudar a epigrafia e a história do mundo antigo. Como um professor de matemática decide deixar sua carreira no campo das ciências exatas e começar a estudar as fontes literárias e arqueológicas do Oriente Próximo e Israel, tornando-se um pesquisador de ponta neste campo?

Em alguns níveis, a matemática funciona como uma linguagem, então eu acho que há alguma conexão entre o fascínio que eu tinha por fórmulas algébricas e meu interesse por manuscritos e línguas antigas. Mas o que realmente me interessou na história do antigo Oriente Próximo é a presença dos oráculos e narrativas sobre a antiga Mesopotâmia na Bíblia. Estudar o Antigo Testamento naturalmente te leva a olhar para a história dos povos vizinhos de Israel. Em última análise, essas civilizações são fascinantes em si mesmas. Quando comecei a ensinar matemática, também comecei a estudar teologia em um seminário durante meu tempo de folga, e logo descobri, em Paris, uma escola de línguas do Oriente Próximo. Então me encontrei ensinando geometria para adolescentes, fazendo cursos em Teologia Sistemática e aprendendo Ugarítico, entre outras coisas...

2. No capítulo de abertura de seu livro, você menciona alguns aspectos das cidades e da vida na sociedade do antigo Israel que são “descobertos” e esclarecidos pela arqueologia. Você poderia citar e ilustrar alguns deles?

Seria um erro acreditar que a arqueologia se limita a descobrir tesouros, como nos filmes de Indiana Jones. No primeiro capítulo, eu tento mostrar que a arqueologia nos fornece uma vasta gama de informações sobre a vida nos tempos antigos. Por exemplo, temos uma ideia da composição da sociedade de Israel durante o período real graças às explorações de superfície conduzidas por Adam Zertal no território de Manassés, no coração do reino do norte. Quase metade dos sítios eram pequenas fazendas de cerca de meio hectare, compostas por uma casa e um local para confinamento do gado. Um terço dos locais eram aldeias (200-250 habitantes), enquanto as cidades com mais de 2 hectares representavam menos que 20%. Esses dados indicam que a estrutura básica da sociedade deve ter sido composta por pequenos agricultores, possivelmente independentes.

Tomando outro exemplo, sabemos pelo menos parcialmente o que as pessoas comiam. Análise de ossos de animais encontrados em Tel Rehov, próximo ao mar da Galileia, mostram que nos séculos X e IX a.C. essa cidade abrigava (ao menos em parte) uma população “rica”, uma vez que consumiam carne de boa qualidade. Além disso, muitas colmeias foram encontradas no mesmo local. Elas permitiram a produção de mel em uma escala quase industrial.

3. Um importante aspecto revelado pela arqueologia e que você menciona no primeiro capítulo do seu livro são as “práticas religiosas”. Uma vez que a arqueologia mostra a propagação dos cultos pagãos no antigo Israel, o livro declara que “os achados demonstram que as práticas religiosas da população frequentemente permaneciam aquém das prescrições da aliança Mosaica”. No entanto, autores como Mark Smith (ex.: "O memorial de Deus") têm usado tais práticas religiosas como uma justificativa para identificar um processo evolucionário na religião do Antigo Testamento, que começa com o politeísmo (de quatro hierarquias de deuses) até o monoteísmo iconoclasta (dos tempos de Josias, por exemplo). Você concorda com a tese de Mark Smith? Como se deve responder a uma ideia que parece ser tomada como certa por grande parte da academia?

Qualquer descrição de crenças religiosas na população do antigo Israel e de seu desenvolvimento envolve dois parâmetros que não são, na maioria das vezes, distinguidas na discussão. E ainda a sua natureza intrincada complica a situação. Por um lado, existe o grau de consenso e de dissensão, ou seja, o grau de diversidade dentro da população em questões religiosas em um dado período. A própria Bíblia nos encoraja a crer que durante a monarquia tardia apenas um pequeno grupo estava exclusivamente ligado a Yahweh, enquanto a maioria da população tinha um sistema de crenças politeístas ou sincretistas envolvendo Baal, Asherah e assim por diante. Os profetas constantemente reclamavam, acima de tudo, que a maioria das pessoas adorava outros deuses ao invés de Yahweh. Por outro lado, há a dimensão diacrônica, em outras palavras, a evolução das crenças e práticas através dos tempos. Aqui a Bíblia afirma que a exclusiva veneração de Yahweh é uma crença antiga, mais antiga do que a maioria dos estudiosos consideraria possível. Mas é notável que o Antigo Testamento não retrate constante e uniformemente os israelitas como um povo monoteísta.

Em relação a este contexto o que a arqueologia pode revelar? Sua principal contribuição é dar ilustrações concretas das crenças politeístas e talvez sincretistas. Isso não é tão surpreendente quanto os textos bíblicos já sugerem retratar. Mas seria muito mais difícil para as escavações sugerirem a presença de crenças monoteístas. Assim, no que diz respeito ao parâmetro da “diversidade de crenças”, a arqueologia pode lançar luz principalmente sobre o politeísmo (que, de fato, provavelmente corresponde à “visão majoritária” na população a maior parte do tempo). Essa não parece ser capaz de apreender a diversidade dentro da população e não devemos esperar o contrário – embora não devamos excluir a possibilidade de futuras descobertas mudarem isso. Em relação ao parâmetro diacrônico, a arqueologia pode nos oferecer alguns insights interessantes, ainda que limitados. Portanto, a iconografia dos selos pode refletir algum impacto da reforma de Josias, uma vez que os temas astrais e antropomórficos, possivelmente relacionados a vários cultos pagãos, desaparecem em grande parte dos selos entre o final do século VII e início do século VI a.C.

Em suma, a arqueologia não parece ser capaz de “detectar” o monoteísmo e muito menos medir a extensão de seu sucesso na população. Os arqueólogos também não podem datar o surgimento do monoteísmo. Como resultado, a reconstrução da história das crenças religiosas depende grandemente de pontos de vistas exegéticos sobre as datas de alguns textos bíblicos e de se consideramos que as narrativas que eles contêm são históricas ou (mais ou menos) ficcionais.

4. Nos capítulos 3 e 4 você aponta certas limitações da arqueologia (tais como a dificuldade em datar certos estratos e ruínas que se amontoam uns sobre os outros) e propõe uma abordagem equilibrada. Por um lado, deve-se evitar o extremo ilusório de “pensar que alguém pode ‘provar que a Bíblia está certa’ através das descobertas nas escavações”, porque “a Bíblia não necessita que sua veracidade seja estabelecida por meio de testemunhas materiais para que ela seja crível: os fiéis que confiam de modo firme na Bíblia não irão esperar que que cada detalhe seja provado”. Por outro lado, devemos evitar a postura altamente crítica daqueles que não admitem que a Bíblia é uma fonte histórica ou daqueles que usam a arqueologia como um “juiz” da historicidade da Bíblia, sendo tão ingênuos para pensar que a inscrição de uma estela ou dos anais de um rei, que é altamente tendencioso, seria mais confiável do que as Escrituras. Na sua opinião, qual seria uma abordagem equilibrada para a reconstrução de dados históricos que usam a arqueologia e a Bíblia adequadamente?

A arqueologia e a Bíblia são duas fontes distintas de informações que possuem seus próprios limites (a Bíblia não é um manual de história antiga!). Elas precisam ser cuidadosamente estudadas com os métodos que lhes são peculiares. É arriscado fazer escavações com “a Bíblia em uma das mãos”, principalmente porque podem levar alguns estudiosos a interpretar de modo errado os resultados devido ao seu desejo de encontrar algo relacionado ao texto. Também é um exercício precário julgar a historicidade das narrativas bíblicas por meio da arqueologia. A exegese é uma atividade falível e a arqueologia envolve muita interpretação também. No fim, talvez a postura mais prudente seja investigar a Bíblia e a arqueologia separadamente e tentar combinar os resultados de ambas as áreas apenas em um segundo estágio, para a reconstrução histórica. No entanto, deve-se reconhecer que o modo como se usa a Bíblia para a reconstrução histórica repousa, em grande parte, sobre pressupostos hermenêuticos. Assim, dois estudiosos de convicções diferentes a respeito disso provavelmente irão propor duas reconstruções diferentes da história de Israel. Infelizmente, muita subjetividade está envolvida aqui. Mesmo dois estudiosos que trabalhem com o mesmo conjunto de pressupostos podem chegar a conclusões diferentes, porque um pode ser mais inclinado a aceitar a plausibilidade de uma narrativa antiga, enquanto o outro é naturalmente mais cético. Eu gostaria de encorajar a todos a serem mais claros sobre quais são os seus pressupostos, a tentarem ser honestos com os fatos e a distinguirem entre o que é factual e o que é apenas hipotético.

5. Israel Finkelstein é um arqueólogo brilhante que esteve aqui no Brasil em 2015, dando palestras na Universidade Metodista de São Paulo. As ideias dele parecem ser adotadas mais facilmente por eruditos na área de estudos da Bíblia Hebraica do que por arqueólogos profissionais. Dois arqueólogos importantes, Amihai Mazar e William Dever, têm questionado e rejeitado grande parte da teoria de Finkelstein de que Judá era um reino insignificante no século X a.C. e de que antes do século VIII a.C. não se tornou verdadeiramente um estado. Em uma resenha do último livro de Finkelstein, The Forgotten Kingdom (O reino esquecido), na Biblical Archaelogy Review (BAR), W. Dever é irônico: “Em seu livro, Finkelstein, não ‘descobriu um reino perdido’; ele o inventou. Contudo, um leitor cuidadoso obterá alguns insights sobre Israel – isto é, sobre Israel Finkelstein”. No capítulo 5 de A Bíblia e Arqueologia e no seu artigo “Elusive Scrolls” (Vetus Testamentum), você apresenta críticas cautelosas contra a teoria de Finkelstein e mostra que os pontos de vista de Finkelstein permanecem isolados em várias questões importantes (“Elusive Scrolls”, 29). Quais seriam os aspectos mais problemáticos na proposta de Finkelstein que foram rejeitados pela maioria dos estudiosos? Por quê?

Israel Finkelstein é um estudioso brilhante e muito produtivo que escreveu a respeito de uma considerável variedade de assuntos. Eu pessoalmente admiro-o. A maior parte de sua obra certamente passará pelo teste do tempo, mas há uma área específica onde ele apresentou uma hipótese tanto inovadora quanto controversa que de fato não é aceita pela maioria dos arqueólogos: a cronologia da idade do ferro. Colocando de modo simples, ele notou que vários prédios importantes em Meggido, Hazor e Gezer, os quais costumam ser datados no tempo de Salomão (século X a.C.), poderiam ser datados teoricamente no século IX a.C., uma vez que a cerâmica, principal ferramenta para datação em arqueologia, não desenvolveu-se significativamente entre os séculos X e IX a.C. Ele estava certo em apontar esta ambiguidade na cerâmica, mas haviam outros aspectos (ex: a densidade do estrato) que levaram a maioria dos arqueólogos a rejeitar a sua proposta. Isto não prova que ele está errado, mas acho vergonhoso que ele algumas vezes afirme que a sua visão esteja claramente estabelecida, quando continua a ser uma visão minoritária. A ironia é que Finkelstein tem sido tão talentoso em explicar as suas ideias em livros populares que a maioria das pessoas acredita que elas representam as opiniões mais recentes e normativas na arqueologia. Até mesmo estudiosos bíblicos frequentemente aceitam acriticamente as opiniões dele, citando os seus livros populares ao invés de realmente olharem para as revistas acadêmicas a fim de compreenderem o debate científico.

Assim, a recepção da visão de Finkelstein sobre a cronologia entre leitores comuns e os exegetas é oposta à sua recepção entre os arqueólogos. No entanto, o seu trabalho resultou em um aperfeiçoamento na cronologia da idade do ferro e Amihai Mazar sugeriu uma “cronologia convencional revisada” que integra algumas ideias de Finkelstein. Deve-se acrescentar que a Bíblia não nos diz exatamente o que Salomão construiu ou reconstruiu em Meggido, Hazor e Gezer, então as apostas provavelmente não são tão altas como algumas pessoas acreditam.

Em relação à crítica de William Dever, ela trata da reconstrução histórica do reino do norte nos séculos X e IX a.C. Muitos estudiosos não acreditam que uma monarquia unificada liderada por Davi e Salomão tenha existido, mas eles não propõem um cenário alternativo quanto ao surgimento dos dois reinos hebreus, Israel no norte e Judá no sul. Provavelmente Finkelstein é o primeiro a articular uma visão alternativa e detalhada em relação à narrativa bíblica. Eu não vejo nenhuma razão para negar que isto é intelectualmente brilhante, muito embora eu discorde das premissas de Finkelstein e de seu cenário altamente hipotético. Deve-se notar que um historiador tão excelente como André Lemaire ainda acredita que uma monarquia unificada existiu no século X a.C. Estritamente falando, isso não pode ser provado (nem refutado), mas esse ainda é um cenário plausível. (Aqueles que leem francês e estejam interessados, podem ler a minha resenha de The Forgotten Kingdom no jornal Transeuphratène 48 [2016], disponível em academia.edu).

6. Como epigrafista, você é um perito em documentos e inscrições do mundo antigo e aborda estas questões no final de seu livro. Há uma teoria, adotada por estudiosos como Finkelstein e Schniedewind (autor de How the Bible Became a Book), ou seja, que Israel não poderia ter produzido textos antes do século VIII a.C. Por que esta teoria está equivocada? Qual é a grande dificuldade da arqueologia em relação aos papiros e rolos?

Muitos estudiosos afirmam que Judá e Israel não foram capazes de produzir obras literárias extensas antes do século VIII a.C., geralmente por duas razões. Primeiro, um número muito limitado de inscrições dos séculos X e IX a.C. foi descoberto em territórios relevantes e elas eram muito curtas, enquanto temos mais textos epigráficos do século VIII a.C., alguns deles contendo várias sentenças. No entanto, esse argumento não é convincente. O problema é que textos extensos foram escritos em papiro, que é perecível no clima de Israel, então “a ausência de evidência não é evidência de ausência”. Em segundo lugar, muitas pessoas acreditam que é necessário algum grau de “desenvolvimento socioeconômico” para um país produzir literatura, e Finkelstein acha que Judá, em particular, não era “desenvolvida” o suficiente até o século VIII a.C. Contudo, a primeira afirmação está errada (existem contraexemplos) e a segunda é muito contestada.

Na verdade, a afirmação de que nenhuma literatura poderia ter sido produzida pelos israelitas antes do século VIII a.C. é popular entre os estudiosos bíblicos, mas é considerada um mito por epigrafistas, incluindo Alan Millard, André Lemaire, Christopher Rollston e por mim. Eu publiquei um artigo extenso em Vetus Testamentum no ano passado sobre esse assunto e o último capítulo do meu livro sobre arqueologia é, de certo sentido, uma versão popular do mesmo. No mesmo ano, e de forma independente, um volume foi publicado com um artigo de C. Rollston, um epigrafista de ponta, que conclui que “é absolutamente certo que qualquer um que argumente que não houve capacidade de produção de textos históricos e literários no antigo Israel ou Judá antes do século VIII a.C. não está au courant (bem informado) com os dados epigráficos. Esse argumento é moribundo”. (C. Rollson, “Inscriptional Evidence for the Writing of the Earliest Texts of the Bible”, em J.C. Gertz, B.M. Levinson, S. Rom-Shalit and J. Schmid [eds.], The Formation of the Pentateuch, Tübingen, Mohr Siebeck, 2016, p. 15-45, esp. 45).

Finalmente, o próprio Finkelstein mudou de opinião sobre esse assunto. Ele publicou um artigo junto com o seu colega Benjamin Sass (um grande epigrafista e amigo meu) onde ele reconhece agora que foi possível existir literatura no século IX a.C., em vista das inscrições recentemente descobertas que mostram que o cursivo (um tipo de escrita usada para escrita rápida em papiro) já estava em uso. (B. Sass e I. Finkelstein, “The Swan-Song of Proto-Canaanite in the Ninth Century BCE in Light of an Alphabetic Inscription from Megiddo”, Semitica et Classica 9 [2016], p. 19-42).

7. Para encerrar, ainda relacionado com textos antigos, pedimos que você comente a respeito de duas descobertas recentes: o papiro do século VII a.C. que menciona a cidade de Jerusalém1  e o suposto texto massorético de Levítico 1 e 2 encontrado em En-Gedi. Qual é a importância dessas duas descobertas para o estudo da Bíblia e da arqueologia?2

A descoberta de um papiro do período real, escrito em paleo-hebraico (a escrita hebraica usada em Israel e Judá durante a monarquia), seria realmente uma notícia maravilhosa! Apenas um papiro assim (datado de cerca do século VII a.C.) foi encontrado na caverna de Murabba‘at, próximo do mar morto. Infelizmente, existem boas razões para suspeitar que o texto recentemente publicado mencionando Jerusalém é uma falsificação moderna. Entre outras coisas, a forma como as letras são escritas (o “ductus”) é muito estranha e parece trair a mão moderna. Christopher Rollston já escreveu sobre isso em seu blog (rollstonepigraphy.com). Estou planejando escrever um artigo sobre esse assunto junto com André Lemaire.

Quanto ao rolo de Levítico encontrado em En-Gedi, ele é uma adição bem-vinda à coleção de manuscritos antigos da Bíblia. Existe algum debate sobre a sua datação, visto que as medições de radiocarbono indicam os séculos III e IV d.C., ou, possivelmente, mas menos provável, o século II d.C.; enquanto que a paleografia (o estudo da evolução da escrita) favorece uma datação no século I d.C. ou início do século II d.C. De modo geral, o rolo parece ser mais recente do que os anteriores manuscritos do mar morto, o que é interessante porque lança alguma luz sobre um período do qual nós temos apenas uns poucos manuscritos do Antigo Testamento. Baseado em duas colunas contendo o texto de Levítico 1:1-9 e 2:1-11, a publicação preliminar conclui que “o texto preservado de Levítico 1-2 corresponde exatamente ao texto consonantal do medieval TM [= Texto Massorético] e não encontramos uma única variante vis-à-vis (contrária) ao TM” (M. Segal et al., “An Early Leviticus Scroll from En-Gedi: Preliminary Publication”, Textus 26 [2016], p. 10). Isso não é surpreendente, já que o Texto Massorético já predominava nos rolos do Mar Morto – embora isso não signifique que ele deve ser considerado como um Texto Recebido (ou Textus Receptus), mas isto é outra história!

Talvez a coisa mais impressionante a dizer sobre esse rolo é que ele está em um estado de conservação tão ruim que é impossível desenrolá-lo. No entanto, graças aos “escaneamentos transversais de alta resolução” dos rolos, os estudiosos foram capazes de “desenrolá-lo virtualmente” e ler algumas colunas! Isso seria impossível a algumas décadas ou mesmo alguns anos atrás. Isso ilustra a importância das novas tecnologias para a arqueologia e nos dá esperança de novos progressos no futuro.

Traduzido por Tiago Silva e revisado por Jonathan Silveira.
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1http://www.timesofisrael.com/oldest-hebrew-mention-of-jerusalem-found-on-rare-papyrus-from-7th-century-bce/
2http://www.nytimes.com/2016/09/22/science/ancient-sea-scrolls-bible.html?_r=0

 

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Matthieu Richelle

Matthieu Richelle

É doutor em Ciências Históricas e Filológicas pela EPHE-Sorbonne e ex-aluno da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém) é autor de vários artigos e livros, entre eles A Bíblia e a arqueologia e professor de Antigo Testamento na Faculdade Livre de Teologia Evangélica (Vaux-sur-Seine)