Resenhas

A tentação do antissemitismo

27/04/2017 15:31:33

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A  tentação do antissemitismo O livro De quem é a Terra Santa: o contínuo conflito entre Israel e a Palestina, de Colin Chapman (Viçosa, MG: Ultimato, 2017), apresenta-se como uma tentativa de oferecer uma interpretação “imparcial” do conflito entre israelenses e palestinos pela “Terra Santa”. O autor pretende oferecer as percepções dos dois lados do conflito, por meio de fartas citações dos principais personagens. Mas suas muitas e longas citações são altamente seletivas, e seu argumento se apoia em notórios oponentes do judaísmo, como Naim Ateek, Norman Finkelstein, David Hirst e Edward Said.

O autor tenta alertar para o perigo do antissemitismo e se concentra em algumas das dificuldades sofridas pelos judeus. Mas não distingue entre o antissemitismo religioso (tristemente propagado por alguns dos Pais da Igreja e Martinho Lutero) e o antissemitismo étnico (que foi dominante, nos séculos 19 e 20, na Rússia, na França e na Alemanha, onde se originou o Holocausto, quando 6 milhões de judeus foram mortos pela máquina de guerra nacional-socialista).

No entanto, seu argumento central é que a culpa do conflito seria das potências ocidentais (do Reino Unido, que fez promessas a judeus e árabes quando a terra era um protetorado britânico, sabendo que não poderia cumpri-las; e dos Estados Unidos, que supostamente coagiram outros membros das Nações Unidas a votar em favor do plano de divisão de 1947) e, sobretudo, dos sionistas, que teriam comprado a terra com dolo dos proprietários, os absenteístas, em meados do século 19.

Mas o autor, em momento algum, coloca a história em contexto, deixando de retratar a situação desta parte do Império Otomano, neste momento-chave, que vai do fim do século 19 até o início do século 20.

Tomemos, por exemplo, a região do Vale de Hula, na Alta Galileia. Havia pouquíssimas aldeias sobrevivendo precariamente numa região pantanosa infestada de malária, em terrenos pertencentes a ricos latifundiários que moravam em Damasco e não ligavam para a população, vivendo num império corrupto e que ruiria ao fim da I Guerra Mundial. Chegaram grupos de judeus organizados da Europa, que compraram essas terras a bom preço dos latifundiários, que acreditavam que os judeus eram tolos por comprar pântanos que não serviriam para nada. Mas os judeus drenaram os pântanos, trabalharam duramente e transformaram o vale num paraíso. Isso se aplica de forma geral ao resto da região.

Portanto, qualquer pesquisa mais profunda do conflito na região precisa levar em conta o que era essa região do Império Otomano antes e depois dos sionistas, ou antes e depois da fundação de Israel – algo que o autor não faz.

Outro ponto problemático na obra refere-se à origem da identidade nacional dos palestinos. O debate, em linhas gerais, concentra-se na afirmação de alguns de que a identidade palestina teria começado a surgir após a I Guerra Mundial (quando a região passou a integrar o Reino Árabe da Síria e, depois, o Mandato Britânico da Palestina), como resposta ao sionismo. Outros sugerem que esta identidade teria nascido somente após a guerra de 1967, pois a Cisjordânia estava sob o controle da Jordânia, e os moradores da região não estavam fazendo protestos para ter seu próprio estado palestino independente da Jordânia. Somente em 1974 a Organização para Libertação da Palestina (OLP) passou a reclamar um Estado palestino independente. Em 1977, Zuheir Mohsen, membro executivo da OLP, disse ao jornal holandês Trouw que "não há diferenças entre jordanianos, palestinos, sírios e libaneses", são todos parte de uma "nação árabe", embora a identidade palestina fosse enfatizada por razões políticas: "Não existe 'povo palestino'. A criação de um Estado palestino é apenas um meio para continuar a nossa luta contra o Estado de Israel".

Assim, a suposição de que haveria "palestinos" vivendo na terra, na altura da chegada dos judeus em fins do século 19, é uma compreensão anacrônica dependente do revisionismo islâmico, mas que parece ser endossada pelo autor.

Chapman não aborda o caráter defensivo das guerras travadas por Israel em 1948, 1967 e, especialmente, 1973 (iniciada no dia do Yom Kippur, quando o povo de Israel estava em sua maioria orando nas sinagogas), os repetidos apelos à aniquilação de Israel por parte dos líderes árabes e de seus meios de comunicação e, sobretudo, as políticas britânicas extremamente opressivas contra os refugiados judeus do Holocausto que queriam fugir para a região. Não é surpresa que ele também não mencione em momento algum a associação do Grande Mufti árabe com os nacional-socialistas, seu encontro com Adolf Hitler e as intenções genocidas compartilhadas. Ignora também que cerca de 25 mil muçulmanos se alistaram nas Waffen-SS e serviram no exército alemão, e estiveram envolvidos em crimes de guerra cometidos inclusive contra civis judeus nos Bálcãs, em 1944. O autor também relativiza o papel do islamismo nas tensões entre Israel e os palestinos, afirmando que o islamismo não estaria na raiz do conflito e a ênfase no Islã seria apenas uma reação recente à opressão israelense; também sugere que Israel seria o responsável pela formação do Hamas, uma notória organização terrorista. Também é incapaz de discutir as tensões no Oriente Médio num contexto de terrorismo militante islâmico, após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos.

Além disso, o autor assume a ideia de que Israel fez uma “limpeza étnica” nos territórios palestinos. No entanto, cerca de 20% dos cidadãos israelenses são árabes e cerca de 17% destes são muçulmanos (os judeus são 75% da população, e os cristãos 2%). Na última contagem, seus cidadãos árabes foram representados por 13 (de 120) membros no parlamento israelense, pertencentes a quatro partidos políticos: Balad, Hadash, Lista dos Árabes Unidos e Ta'al (enquanto isso não há nenhum parlamentar judeu em países árabes; na verdade, poucos países árabes tem sequer parlamento).1  A impressão oferecida é que o autor busca encontrar desculpas que irão apoiar a conclusão de que os judeus não tem o direito à terra, ainda que haja alguma disposição de permitir que vivam nela como concessão, pois ele defende a noção de “um estado, dois povos”, um Estado binacional (que levaria ao fim o caráter judaico do Estado de Israel), como possível solução para o conflito.

A obra também pretende ser uma crítica ao pré-milenismo dispensacionalista. O livro cita uma declaração do Conselho de Igrejas do Oriente Médio que afirma que esta interpretação escatológica seria uma heresia para os cristãos do Oriente Médio. Me parece que Chapman cai na falácia do espantalho, porque ele critica o modelo escatológico dispensacional sem explicar direito qual modelo dispensacional é alvo de sua crítica (Darbiano, Clássico, Revisado ou Progressivo). Assim, o autor critica uma forma de dispensacionalismo que embora seja o modelo que mais conhecemos no Brasil, na academia teológica norte-americana é um modelo já ultrapassado, e poucos dispensacionalistas de renome hoje afirmam o modelo criticado pelo autor.

Ainda que o autor rejeite corretamente, por meio de um bom tratamento de Romanos 11, toda noção conectada ao supersessionismo (ideia também conhecida como “teologia da substituição”), não há nenhum apelo ou desafio sobre a veracidade das cosmovisões dos grupos étnicos envolvidos, muito menos uma ênfase na pregação do evangelho do Príncipe da Paz, Jesus, o único Messias e redentor de todas as etnias, incluindo judeus e árabes. Em nenhum lugar isso chega a ser sequer discutido. Mas, como bem afirma Palmer Robertson, “o prometido Reino messiânico de Jesus Cristo chegou. Sua chegada marca o ponto central de toda a história humana. Esse Reino do Messias continua a realizar sua plenitude conforme judeus e gentios eleitos são incluídos na comunidade dos redimidos em cada geração. O mesmo Reino será manifesto em sua forma final com o retorno do Cristo Rei em toda sua glória [...] quando todos se ajoelharão e declararão que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai”.

Parece que este é o primeiro livro lançado por uma editora evangélica no Brasil que faz uma defesa, mesmo que sutil, da causa dos árabes palestinos. Fica o receio de que os adeptos da esquerda “progressista cristã” usem este livro para promover uma onda antissemita entre os evangélicos, afirmando a narrativa pró-islã dos palestinos como “as verdadeiras vítimas do conflito”. Portanto, é necessário alertar o leitor sobre esta obra, escrita com preconceito cuidadosamente escondido, mas insidioso, contra Israel – a única democracia verdadeira no Oriente Médio.

Leituras sugeridas:

Martin Gilbert, História de Israel (Lisboa: Edições 70, 2009).
Robert Irwin, Pelo amor ao saber: os orientalistas e seus inimigos (Rio de Janeiro: Record, 2008)
Michael B. Oren, Seis dias de guerra: junho de 1967 e a formação do moderno Oriente Médio (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004).
O. Palmer Robertson, O Israel de Deus: passado, presente e futuro (São Paulo: Vida, 2005).
Barry Rubin & Wolfgang G. Schwanitz, Nazis, Islamists, and the Making of the Modern Middle East (New Haven: Yale University Press, 2014).

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1Em 2016, um parlamentar cristão árabe, Basel Ghattas, do partido Balad, foi preso por usar sua imunidade para entregar telefones celulares e cartões SIM a terroristas na prisão de Ketziot, ao sul de Berseba. Após concordar em renunciar ao parlamento (Knesset) e fazer um acordo com os promotores, foi condenado a dois anos de prisão.

 

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Franklin Ferreira

Franklin Ferreira

Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. É diretor e professor de teologia sistemática e história da igreja no Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos, São Paulo, e consultor acadêmico de Edições Vida Nova. Autor de vários livros, entre eles Teologia Sistemática (este em coautoria com Alan Myatt), A Igreja Cristã na História, Avivamento para a Igreja e Contra a Idolatria do Estado, publicados por Edições Vida Nova, e Servos de Deus e O Credo dos Apóstolos, publicados por Editora Fiel.

 

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