Teologia

O suicídio da razão

29/08/2017 09:59:52

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O suicídio da razão
“Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 8.38-39).


1. Introdução

No mês de julho as redes sociais entraram em polvorosa com a divulgação de um vídeo, em que os pastores Augustus Nicodemus Lopes e Franklin Ferreira respondem a uma pergunta sobre como a fé cristã lida com questões como depressão e suicídio.1 Em sua resposta os pastores trataram da possibilidade de um verdadeiro cristão cometer suicídio. Imediatamente, partidários e adversários da posição defendida pelos pastores iniciaram uma verdadeira batalha na rede social. Pouco faltou para que alguns anátemas fossem lançados de maneira mútua. Algumas páginas arminianas no Facebook iniciaram um movimento de difamação dos pastores supramencionados, afirmando, por exemplo, que eles estavam encorajando uma versão evangélica do famigerado jogo Baleia Azul.

A grande questão gira em torno da pressuposição assumida pela grande maioria dos evangélicos e também por alguns protestantes reformados – pressuposição não provada – de que um verdadeiro cristão nunca chegará ao ponto de cometer o pecado do suicídio. O cristão, segundo se imagina, pode até sofrer com a tentação do suicídio, mas ele jamais consumará tal ato. Caso alguém que se diz cristão venha a tirar a própria vida ficará evidenciado que, na realidade, tal não era um cristão genuíno. É dito, além disso, que o suicídio é um pecado que, ao ser cometido, condena automática e imediatamente, a pessoa à eternidade no inferno. Tal posicionamento majoritário no meio evangélico evidencia uma gigantesca deficiência bíblica, doutrinária e pastoral. Também é preciso notar a maneira como a igreja evangélica ainda se encontra amarrada a esquemas conceituais essencialmente católicos romanos.

Diariamente nos deparamos com algo assustador e até mesmo impensável no meio da igreja cristã: um pastor que comete suicídio, uma jovem ou mãe ou pai que tira a própria vida, uma adolescente que decide pôr fim à sua vida, ou ainda um parente próximo que comete tal ato.

Está mais do que provado que a igreja contemporânea se encontra incapaz de apresentar as razões adequadas para a sua forma de pensar e suas decisões éticas, como no caso do suicídio. Ron Gleason, um estudioso da ética cristã, queixa-se de maneira acertada de que, “a igreja moderna parece estar tão empenhada em entreter a si mesma e seus membros à morte, que precioso pouco tempo e atenção são dedicados a questões éticas importantes”.2 O que tem imperado, de acordo com ele, é uma “abismal ignorância mesmo quanto às verdades mais elementares da fé cristã”.3  O autor aos Hebreus se queixou dos seus eleitores, pois quando eles já deveriam ser mestres, “atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes necessitados de leite e não de alimento sólido” (5.12).

Somos aqueles que, neste ano de 2017, alegram-se com as comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante. Somos herdeiros de um movimento teológico que teve como uma das suas principais bandeiras a gloriosa doutrina da Justificação pela Fé Somente. Todavia, a atual discussão a respeito do suicídio serviu para revelar a crassa ignorância a respeito desta e de outras doutrinas igualmente preciosas.

Por fim, nesta introdução é imprescindível esclarecer o meu propósito aqui. Não se trata de uma defesa ou apologia do suicídio. Ficará evidenciado que a posição unânime da fé cristã em relação ao suicídio é considerá-lo como uma flagrante transgressão da lei de Deus. Acusações foram feitas nas redes sociais, no sentido de que aqueles que defendem que o suicídio, em si mesmo, não define o estado eterno de uma pessoa, estariam incentivando a prática do suicídio ou, no mínimo, fazendo uma apologia da mesma. Nada mais distante da verdade. Tal acusação é uma absurda distorção ou caricatura do que tem sido afirmado em relação ao assunto.

Assim, o objetivo do presente artigo é submeter tal posição a uma análise bíblica, histórica e teológica, a fim de, em primeiro lugar, glorificar o nome do Senhor Deus, o Autor e Doador da vida humana; em segundo lugar, afirmar e defender a santidade da vida humana; e, em terceiro, oferecer verdadeiro consolo a todos aqueles que choram a perda de um ente querido que tirou a própria vida. Minha sincera oração é que o Senhor Deus ajude o leitor a remodelar a sua maneira de pensar pelas Sagradas Escrituras e pelo bom uso do raciocínio lógico. Que saibamos aplicar a doutrina do Sola Scriptura às questões éticas com as quais nos defrontamos. O apóstolo Paulo afirmou, em 2Timóteo 3.16-17: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”. Creiamos, então, na suficiência das Escrituras para nos guiarem também no doloroso tópico do suicídio.

Na primeira parte abordaremos a questão das cosmovisões envolvidas na discussão, uma definição etimológica do suicídio, bem como uma análise de algumas passagens da Escritura de grande importância sobre o assunto. Na segunda parte será abordada a maneira como o suicídio foi abordado por alguns dos principais teólogos da História da Igreja, o modo como algumas doutrinas como a justificação pela graça mediante a fé somente e a perseverança dos santos influenciam na maneira como enxergamos o suicídio, além de algumas questões pastorais que necessitam ser afirmadas.

2. A importância das cosmovisões e o suicídio

Nosso primeiro passo, portanto, é apresentar uma breve discussão a respeito de se compreender o que está por trás da maneira de pensar majoritária quanto à possibilidade de suicídio por parte de um verdadeiro cristão.

De onde vêm conceitos e afirmações como, por exemplo: “Quem comete suicídio está automaticamente condenado ao inferno!”, “Quem tira a própria vida comete um pecado sem perdão!”, ou ainda, “O suicídio é um pecado sem perdão, pois a pessoa que o comete não tem tempo para se arrepender!”? Tais afirmações são oriundas das cosmovisões, ou visões de mundo, que as pessoas que as fazem sustentam. E é preciso que entendamos que todas as pessoas, todos os indivíduos, quer saibam, quer não, possuem alguma cosmovisão. E, por isso, é mais do que necessário entendermos o que vem a ser isso. Precisamos compreender o que vem a ser uma cosmovisão.

Ronald Nash apresenta uma definição do termo, afirmando que, “uma cosmovisão é, portanto, um esquema conceitual que contém nossas crenças fundamentais, sendo o meio pelo qual nós interpretamos e julgamos a realidade”.4  Em seus termos mais simples, “cosmovisão é um conjunto de crenças sobre as questões mais importantes da vida”.5  Uma cosmovisão funciona de modo semelhante aos óculos. Uma definição mais simples diria que “cosmovisão é semelhante a uma lente intelectual através da qual enxerga-se o mundo. Se alguém olha através de uma lente vermelha, o mundo lhe parece vermelho. Se outro indivíduo olha através de uma lente azul, o mundo lhe parece azul”.6 Em outras palavras:
As lentes corretas, tal como a cosmovisão correta, podem mostrar o mundo de maneira mais clara. Quando as pessoas olham o mundo por meio de cosmovisões erradas, a realidade não lhes fará sentido. A colocação adequada do esquema conceitual, isto é, olhar o mundo por meio da cosmovisão correta, tem consequências para o restante do pensamento e da ação da pessoa.7
Assim, as afirmações que colocam todo e qualquer suicida automaticamente no inferno e sem qualquer disposição para, ao menos silenciar, e deixar o julgamento nas mãos do bondoso, sábio e justo Deus, têm a sua origem nas lentes intelectuais que as pessoas usam para ler a realidade da vida.
Talvez a definição que mais nos ajude a compreender como cristãos protestantes e reformados conseguem sustentar tais posições sobre o suicídio, foi apresentada por James W. Sire, um estudioso americano. De acordo com ele, uma cosmovisão
é um compromisso, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expresso como uma estória ou num conjunto de pressuposições (suposições que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas) que sustentamos (consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da realidade, e que fornece o fundamento no qual vivemos, nos movemos e existimos.8
Em sua definição de cosmovisão, Sire elenca algumas expressões extremamente significativas para a nossa discussão. Ele fala de uma cosmovisão como uma crença (uma orientação fundamental do coração) e um conjunto de pressuposições ou suposições que carecem de verificação, a fim de que a sua veracidade seja estabelecida. Além disso, tais suposições são sustentadas consciente ou subconscientemente. Sire destaca ainda que, “em nossa vida diária, como pensadores e atores, o grosso da nossa cosmovisão é completamente subconsciente. Nós pensamos com ela, não sobre ela”.9 Aplicando esta ideia à discussão a respeito do pecado do suicídio, podemos entender que a vasta maioria das pessoas que fazem as afirmações mencionadas no início deste tópico não estão conscientes da sua origem nem das suas implicações. É perfeitamente possível que uma pessoa que professa a fé reformada seja influenciada por outra cosmovisão, como o catolicismo romano, por exemplo, ou ainda o arminianismo, não perceba tal influência e, dessa forma, acabe por fazer afirmações completamente inconsistentes com a visão de mundo que ela professa publicamente, a saber, o calvinismo.

As afirmações mencionadas no início deste tópico são afirmações essencialmente romanistas e arminianas. Elas trazem em seu bojo pressuposições católicas e sinergistas, como será verificado posteriormente. Mesmo grandes nomes da fé reformada e irmãos nossos podem expressar opiniões que evidenciam influência de outros sistemas de pensamento.

Quando isso acontece, Ronald Nash diz:
Uma das coisas mais importantes que podemos fazer pelos outros é ajudá-los a obter um melhor entendimento de sua cosmovisão. Também podemos ajudá-los a melhorar essa cosmovisão, o que significa eliminar inconsistências e fornecer novas informações que ajudarão a preencher lacunas em seus sistemas conceituais.10
A pergunta, então, é se tais pessoas estão dispostas a pesarem todas as coisas pelas Sagradas Escrituras e pelo bom uso do raciocínio, para que as inconsistências existentes em seus conceitos sejam devidamente eliminadas. Mais uma vez, a reflexão de Nash é pertinente:
A maioria de nós conhece pessoas que parecem incapazes de ver certos pontos que nos são óbvios (talvez essas pessoas nos vejam como igualmente obtusos ou teimosos). Elas parecem ter uma grade embutida que filtra informações e argumentos e as faz aplicar uma distorção peculiar em coisas que nos parecem óbvias. Embora isso possa às vezes ser resultado de algo peculiar nessas pessoas, geralmente é consequência da sua cosmovisão.11
Em relação à questão da possibilidade de salvação para alguém que comete suicídio, muitas pessoas não conseguem enxergar as inconsistências existentes na sua maneira de entenderem a questão. Por exemplo: Como conciliar a afirmação de que o suicídio é um pecado que está além da possibilidade de redenção e perdão com a afirmação bíblica da blasfêmia contra o Espírito Santo como sendo o único pecado que não será perdoado nem nesta vida nem na vindoura (Mateus 12.31)? Como harmonizar a ideia de que o arrependimento é a condição sine qua non para que alguém possa ser salvo e, uma vez que o suicida não tem tempo para se arrepender ele não pode ser salvo, com os conceitos de salvação pela graça, da suficiência de Cristo como Redentor e da justificação pela fé? Não há como conciliar tais inconsistências. Apesar disso, não são poucos aqueles que se vêm impossibilitados de obter consistência em seu entendimento do assunto, mas insistem em manter ambas as formas de pensar.

3. O suicídio definido


Uma vez compreendido o papel que as cosmovisões exercem na maneira como as pessoas leem a realidade que as circunda, convém agora tratar do suicídio de forma direta, buscando, em primeiro lugar, apresentar sua definição.

3.1. A Etimologia

Linguisticamente, a discussão em torno do termo “suicídio” e seus cognatos é muito interessante, uma vez outras línguas possuem uma variedade de palavras para cobrir o ato do suicídio em suas variadas circunstâncias. Etimologicamente, o termo vem da junção de duas palavras latinas: sui (si mesmo) e caederes (cortar, matar), e designa a ação voluntária ou deliberada de uma pessoa em tirar a própria vida. O termo foi cunhado apenas no século 17, mais especificamente no ano de 1651, por um filósofo e escritor inglês chamado Walter Charleton, que escreveu uma obra intitulada Ephesian and Cimmerian Matrons: “Vindicar-se de uma calamidade inevitável por suicídio, não é crime”.12  Até Charleton cunhar o termo a língua inglesa não possuía um único termo para tratar de tais casos. Isto não representa, necessariamente, uma vantagem, pois a uniformidade vocabular conduz a um reducionismo no tratamento do assunto, de maneira que as circunstâncias envolvidas no ato praticado por alguém tendem a ser desconsideradas.

Margaret Pabst Battin, destacada professora de Filosofia e professora adjunta de Medicina Interna, do departamento de Ética Médica e Humanidades da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, faz uma observação interessante sobre o termo suicídio e a variedade existente em outras línguas:
Problemas de definição também surgem como um produto de tradução de uma língua para outra. Assim como o inglês não tinha um único termo para suicídio até 1651, quando Walter Charleton o usou em seu Ephesian and Cimmerian Matrons (“Vindicar-se de uma calamidade inevitável por suicídio não é crime”), muitas outras línguas se referem a esse fenômeno de diferentes modos. O grego, o latim e outras línguas europeias não possuem um termo único e explícito para suicídio, embora possuam uma ampla variedade de locuções. Enquanto o inglês tem apenas um termo principal, “suicídio”, o alemão possui quatro: Selbstmord, Selbsttötung, Suizid e Freitod, sendo que os três primeiros têm diferentes conotações negativas ou neutras, enquanto o último, geralmente, tem uma conotação positiva. Isso significa que os alemães podem falar sobre suicídio em uma extensão que os ingleses não podem. Uma análise mais ampla sem dúvida também revelaria diferenças entre outras línguas.13
A implicação disso é que se constitui num reducionismo tolo abordar a questão do suicídio de maneira tão fechada e hermética como a maioria das pessoas o fazem, ao afirmarem que o suicida está automaticamente condenado à perdição eterna. Os diferentes vocábulos existentes em outras línguas possuem a capacidade de abordar diferentes perspectivas e circunstâncias envolvidas no ato de alguém que tira a própria vida. É importante observar, por exemplo, que os quatro vocábulos alemães mencionados na citação são vertidos friamente para o português como “suicídio”, e, como afirmado pela professora Battin, ao menos um deles possui uma conotação positiva.

Battin também destaca a maneira variada como se costuma definir o que pode ser considerado como suicídio:
Algumas definições são extremamente limitadas. Elas levam em consideração apenas casos em que uma pessoa agiu consciente e voluntariamente de uma maneira que diretamente causou a sua própria morte, com a intenção de que a morte fosse o resultado. Outras são mais amplas, incluindo casos de autoassassinato semi-intencional, autoassassinato semiacidental, autoferimento que resulta na extinção das capacidades cognitivas, embora não do corpo físico, autoassassinato em que a pessoa age com conhecimento de causa e voluntariamente, mas não deseja morrer ou alcançar algum outro objetivo, e assim por diante.14
Trata-se, portanto de algo dinâmico do ponto de vista conceitual e linguístico, exigindo, assim, reflexão séria. Precisamos resistir à tentação de dispensar um tratamento uniforme à questão, não do suicídio em si, mas da sua possibilidade e das suas implicações para a vida de um cristão.

Adicione-se a isto o fato de que o termo suicídio é um termo técnico e clínico , usado para cobrir toda a gama de casos em que alguém tira a própria vida. Quando a disciplina de Ética necessita tratar de casos peculiares ela busca auxílio em expressões compostas, como por exemplo: “suicídio egoísta”, “suicídio heroico”, “suicídio assistido” etc.

3.2. As Escrituras

A Bíblia se limita a narrar casos de pessoas que tiraram a própria vida: Abimeleque, filho de Gideão: “certa mulher lançou uma pedra superior de moinho sobre a cabeça de Abimeleque e lhe quebrou o crânio. Então, chamou logo ao moço, seu escudeiro, e lhe disse: Desembainha a tua espada e mata-me, para que não se diga de mim: Mulher o matou. O moço o atravessou, e ele morreu” (Juízes 9.53,54). Isso se enquadra na categoria de suicídio assistido, em que “alguém provê os meios para que outra pessoa tire a própria vida ou torne possível que o suicídio ocorra”.16  O mesmo pode ser dito da morte de Saul, em 1Samuel 31.1-6, que também registra o suicídio do seu escudeiro: “Agravou-se a peleja contra Saul; os flecheiros o avistaram, e ele muito os temeu. Então, disse Saul ao seu escudeiro: Arranca a tua espada e atravessa-me com ela, para que, porventura, não venham estes incircuncisos, e me traspassem, e escarneçam de mim. Porém o seu escudeiro não o quis, porque temia muito; então, Saul tomou da espada e se lançou sobre ela. Vendo, pois, o seu escudeiro que Saul já era morto, também se lançou sobre a sua espada e morreu com ele” (vv. 3-5). É preciso adicionar uma nota ao caso de Saul, uma vez que existe a possibilidade de ele não ter morrido por causa do ferimento que causou a si próprio. No primeiro capítulo de 2Samuel lemos no início que um amalequita alegou ter encontrado a Saul com vida e, a pedido dele, o matou. Como lemos, a resposta de Davi ao amalequita é instrutiva. Davi ponderou que o ato do amalequita não foi compassivo, mas sim ofensivo e digno de punição severa (vv. 1-16). Contudo, se considerarmos a observação da professora Battin a respeito das definições mais amplas de suicídio, a dificuldade quanto ao caso de Saul é resolvida.

O quarto caso de suicídio é a morte de Aitofel, conselheiro de Davi e de Absalão. Sua morte está registrada em 2Samuel 17.23: “Vendo, pois, Aitofel que não fora seguido o seu conselho, albardou o jumento, dispôs-se e foi para casa e para a sua cidade; pôs em ordem os seus negócios e se enforcou; morreu e foi sepultado na sepultura do seu pai”. Aitofel decidiu cometer suicídio depois que o seu conselho não foi seguido por Absalão. Seu suicídio “foi desencadeado por sua humilhação pública e não foi um ato impensado – ele considera suas opções e conclui que a autodestruição é a melhor delas”.17

O último suicídio registrado no Antigo Testamento é o de Zinri, que foi rei de Israel por sete dias e que colocou fogo em seu palácio, queimando a si mesmo, ao invés de ser capturado por seus inimigos: “Vendo Zinri que a cidade era tomada, foi-se ao castelo da casa do rei, e o queimou sobre si, e morreu” (1Reis 16.18).

No Novo Testamento o único suicídio registrado é o de Judas: “Então, Judas, atirando para o santuário as moedas de prata, retirou-se e foi enforcar-se” (Mateus 27.5); “Ora, este homem adquiriu um campo com o preço da iniquidade; e, precipitando-se, rompeu-se pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram” (Atos 1.18).

3.2.1. O caso de Sansão

Existe grande discussão quanto ao caso de Sansão, registrado em Juízes 16.30: “E disse: Morra eu com os filisteus. E inclinou-se com força, e a casa caiu sobre os príncipes e sobre todo o povo que nela estava; e foram mais os que matou na sua morte do que os que matara na sua vida”. Algumas pessoas argumentam que é inadmissível a noção de Sansão tenha cometido suicídio. Para elas, tratou-se de um ato de guerra ou de um autosacrifício, não de um suicídio. É dito também que “o autor da morte de Sansão foi Deus para trazer juízo aos seus inimigos. Sansão nasceu através de um milagre (um anjo anunciou o seu nascimento) para Deus trazer juízo aos filisteus e liderar o povo de Deus [...] Naquele dia Sansão foi apenas um vaso usado no divino no ‘propósito de Deus’ para trazer esse juízo”.18  Sobre esta afirmação, pode ser dito que Deus é a causa última de todas as coisas, de modo que Deus é a causa última de todas as mortes, uma vez que nada acontece no universo sem que tenha sido ordenado por ele. Poderia ser argumentado também, que Deus foi o autor da morte de Judas Iscariotes, a fim de trazer juízo sobre a sua própria vida. De igual modo, Judas veio à existência com um propósito predeterminado por Deus e com um papel a desempenhar na História da Redenção. Naquela noite em que Jesus Cristo foi traído, Judas foi apenas um vaso usado no divino propósito. Assim, usar este tipo de afirmação, a fim de defender uma causa é complicado, pois acaba mostrando, como afirmou Jean Jaurès, político francês, que “quando os homens não podem mudar as coisas, mudam as palavras”.

Com o objetivo de encontrar apoio para a sua afirmação, o autor citado acima lança mão do teólogo genebrino do século 17, François Turretini que, ao analisar o caso de Sansão, chegou à seguinte conclusão:
O exemplo de Sansão (Jz 16.30) não favorece o suicídio (autocheiria), porque nas ruínas da casa que ele derrubou ele se sepultou não menos que os demais. Este foi um feito singular, perpetrado pela influência extraordinária do Espírito Santo, como transparece do apóstolo (Hb 11.34), que declara que ele fez isso pela fé, baseado nas orações que ofereceu a Deus para a obtenção de força extraordinária para este ato, e no fato de que elas foram ouvidas (Jz 16.28). Deus aumentou sua força e lhe outorgou o desejado sucesso para que assim ele fosse um eminente tipo de Cristo, que causa grande destruição de seus inimigos por meio de sua morte e que quebra o jugo tirânico posto no pescoço de seu povo. Finalmente, o desígnio não visava simplesmente a uma vingança privada, mas à vindicação da glória de Deus, da religião e do povo, visto que ele era uma pessoa pública e levantada por Deus dentre o povo como vingador. 19
Algumas observações sobre a conclusão de Turretini se fazem necessárias. Em primeiro lugar, deve ser salientado que o testemunho de teólogo genebrino foi evocado a partir da falácia do argumento de autoridade.20 O grande problema com o uso do argumento de autoridade é a possibilidade de se encontrar teólogos de igual envergadura ou até maior, que defendem posicionamento contrário. Exemplo disso é o grande Agostinho de Hipona que, apesar de condenar o suicídio, admite que Sansão tirou a sua própria vida. O diferencial, para Agostinho, é que Sansão estava obedecendo a uma ordem recebida direta do Espírito Santo. Em sua obra mais famosa, A Cidade de Deus, ele diz o seguinte em I.21: “Sansão também, que derrubou a casa sobre si mesmo e seus inimigos, é justificado apenas por este motivo, que o Espírito que fez maravilhas por ele lhe deu instruções secretas para fazer isso”.21  No capítulo 26 do Livro I Agostinho usa o exemplo de Sansão para discutir o caso de algumas mulheres que, para não serem violadas pelos bárbaros se jogaram nos rios. Ele escreve:
De tais pessoas eu não presumo falar precipitadamente. Não posso dizer o que não foi outorgada à igreja alguma autoridade divina comprovada por evidências confiáveis, para assim honrar sua memória. Pode ser que seja assim. Pode ser que elas não tenham sido enganadas pelo julgamento humano, mas incitadas pela sabedoria divina ao seu ato de autodestruição. Sabemos que este foi o caso com Sansão. E quando Deus ordena qualquer ato, e intima por evidência clara que ele o ordenou, quem chamará de obediência criminosa? Quem acusará uma submissão tão religiosa?22
Outro detalhe importante no apelo a Turretini, é que ele em nenhum momento enquadra o suicídio como pecado imperdoável. Na Pergunta 17 do Décimo Primeiro Tópico, do Livro 2, Turretini expõe o sexto mandamento. A intenção dele é expor as ocasiões nas quais o homicídio é lícito ou ilícito. Em primeiro lugar, ele apresenta as ocasiões quando não se constitui quebra do sexto mandamento tirar a vida de alguém: 1. Em caso de homicídio judicial, ou seja, na aplicação da pena de morte; 2. Em caso de legítima defesa; e 3. Em caso de homicídio casual, isto é, quando não há dolo ou intenção de matar. Logo em seguida Turretini expõe as ocasiões em que tirar uma vida é pecado: 1. Em caso de homicídio privado, “quando cometido por autoridade privada e traição ímpia, ou movido por ódio e vingança maquinada, ou por qualquer outro motivo vil” ;23 2. Em caso de duelos ilícitos; e 3. A simples existência de ira e ódio no coração já é transgressão da lei divina. O suicídio é discutido por Turretini como espécie de homicídio privado. Em nenhum lugar da sua exposição sobre o sexto mandamento ele classifica o suicídio como pecado imperdoável. Ele o designa como “um crime em extremo hediondo”24  O mais próximo que ele se aproxima é ao afirmar que as pessoas que se matam com a esperança de produzir algum bem por meio de tal ato “não podem ser absolvidas da culpa”. No entanto, a continuação da fala do teólogo genebrino mostra que ele não está pensando em termos de condenação eterna: “Portanto, tais pessoas não podem ser absolvidas da culpa, segundo a regra do apóstolo (não praticar males para que venham bens)”.25

Especialistas tanto em Ética quanto em Antigo Testamento discutem se o caso de Sansão deve ser visto como o caso de alguém que cometeu suicídio. A já citada Margaret Pabst Battin diz o seguinte alhures:
A história de Sansão em Juízes 16, que parece ter implicações para as discussões contemporâneas sobre suicídio tático em situações militares e quase militares de indivíduos, é notável por sua referência à intenção. Sansão pede (e aparentemente recebe) a assistência de Deus para destruir mais de três mil pessoas e matar a si mesmo no processo. Como em outras culturas militares, não está claro se a própria morte de Sansão, seja como vingança por sua cegueira ou como autosacrifício na causa de sucesso militar, deve ser classificada como uma forma de suicídio.26
Apesar da claudicância da professora Battin, a referência que ela faz à intenção de Sansão em seu ato se coaduna tanto com as definições de suicídio mais limitadas quanto com as mais amplas, anteriormente apresentadas. Walter C. Kaiser Jr., especialista de renome em Antigo Testamento, ao listar os casos de suicídio registrados na Bíblia assim se expressa: “O terceiro caso de suicídio é o do juiz Sansão, que, em um ato final de vingança pela perda de sua visão nas mãos dos filisteus, forçou as duas colunas centrais que sustentavam o prédio de dois andares em que os inimigos celebravam sua captura e detenção. Ele literalmente derrubou o prédio sobre si e sobre cerca de três mil filisteus”.27
 
Claude Mariottini, doutor em Antigo Testamento e professor no Northern Baptist Seminary, afirma que nada obsta que a morte de Sansão seja analisada a partir da perspectiva do suicídio.28 Ele aventa todos os problemas e sofrimentos enfrentados por Sansão, como por exemplo, as diversas ocasiões nas quais ele foi traído, primeiramente, por sua esposa filisteia, no dia do seu casamento (Juízes 14.10-20). A segunda traição foi a de uma prostituta, em Gaza (Juízes 16.1-3). A terceira traição ocorreu quando Dalila passou a conhecer a fonte da força de Sansão e o entregou aos Filisteus (Juízes 16.4-19). Destaca-se ainda a traição dos homens de Judá, que se dispuseram a entregá-lo amarrado aos filisteus (Juízes 15.10-13). O Dr. Claude Mariottini diz o seguinte: “É possível que a dor da traição, o estresse sob o qual ele se colocou e o sentimento de fracasso levaram Sansão a contemplar o suicídio”.29

O fato é que Sansão se encontrava, certamente destruído, afinal de contas, como nos diz o versículo 21: “os filisteus pegaram ele, e lhe vazaram os olhos, e o fizeram descer até Gaza; amarraram-no com duas cadeias de bronze, e virava um moinho no cárcere”. Ele também foi feito objeto de escárnio para os filisteus (Juízes 16.23-25). Com todo esse quadro em mente, é importante notar a motivação do coração de Sansão, ao pedir força a Deus: “Sansão clamou ao SENHOR e disse: SENHOR Deus, peço-te que te lembres de mim, e dá-me força só esta vez, ó Deus, para que me vingue dos filisteus, ao menos por um dos meus olhos” (v. 28). A motivação de Sansão está declarada: vingança. Ron Gleason, em seu estudo, diz que não classifica a morte de Sansão como suicídio.30  Mas é no mínimo curioso, que em sua análise do versículo 28, Gleason afirme estar convencido de que o entendimento correto é que Sansão, como último ato da sua vida desejava “destruir os inimigos do povo de Deus, Israel”.31  O problema é que não há nada na narrativa que permita tal conclusão. A motivação do coração de Sansão é explícita. Ele, em sua oração a Deus, pede força apenas para se vingar dos filisteus, ao menos por um dos seus olhos vazados. Em sua oração Sansão expressa um desejo proibido pelo Senhor, isto é, o desejo de tomar a vingança em suas próprias mãos.32  Deuteronômio 32.35 diz: “A mim me pertence a vingança, a retribuição, a seu tempo, quando resvalar o seu pé”. De igual modo, o apóstolo Paulo declara, em Romanos 12.19: “não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor” (conferir Hebreus 10.30).

Yael Shemesh, PhD em Antigo Testamento e professora associada na Faculdade de Estudos Judaicos da Bar-Ilan University Ramat-Gan, em Israel, faz a seguinte afirmação a respeito do caso de Sansão: “A história de Sansão é a única na Bíblia em que o motivo explícito para o suicídio é a vingança [...] Aqui o objetivo não é matar a si mesmo, mas usar a própria morte para matar outros (como os Kamikaze japoneses e os Shahidim islâmicos)”.33  Ela também faz uma afirmação plausível a respeito de uma suplementação na motivação de Sansão: “Entretanto, é plausível que o motivo explícito de vingança foi suplementado por um desejo de terminar uma vida de dor sem esperança, desamparo e humilhação, suportada por alguém que perdeu sua liberdade e visão”.34

Também é importante notar a deliberação de Sansão, no versículo 30: “E disse: Morra eu com os filisteus. E inclinou-se com força, e a casa caiu sobre os príncipes e sobre todo o povo que nela estava; e foram mais os que matou na sua morte do que os que matara na sua vida”. Sansão diz: “Morra eu”. Algumas traduções em inglês, como a King James Version, a English Standard Version e a American Standard Version, interpretam essas palavras como a continuidade da oração de Sansão a Deus: “Deixe-me morrer com os filisteus”. Não pode ser afirmado com certeza que se trata de um pedido feito a Deus. Independentemente, disso, o fato é que, certamente, também não se pode afirmar, como fazem Keil e Delitzsch,35 John Frame36  e Ron Gleason,37 que a morte de Sansão foi um “ato heroico”, não suicídio, uma vez que seu desejo de matar os filisteus não foi motivado pela honra de Deus e o bem do povo de Israel.

Um questionamento final a respeito do caso de Sansão poderia ser feito fazendo uso do mesmo princípio aplicado pelos defensores da ideia de que um verdadeiro crente não é capaz de cometer suicídio: Por que ele não buscou força em Deus para suportar aquele momento de provação e de profundo sofrimento?

Creio não haver nenhuma dificuldade em se utilizar o termo “suicídio” para classificar a morte de Sansão, dado o arrazoado acima. Tudo isso só confirma que, da perspectiva do seu caso, o suicídio nem pode ser considerado um pecado imperdoável, pois Sansão é elencado em Hebreus 11, como um daqueles homens de fé que estão a rodear o povo de Deus (v. 32), nem pode ser argumentado que um verdadeiro crente não chega ao ponto de cometer tal pecado. A despeito da sua claudicância em relação ao suicídio de Sansão, os comentários finais de Ron Gleason são acertados: “A graça de Deus foi mais que suficiente para cobrir a sua desobediência e guardar a sua fé, muito embora sua fé fosse fraca e minúscula”.38

3.2.2. O caso de Judas

Convém tratar brevemente do caso de Judas, em razão de os defensores das ideias de suicídio como pecado imperdoável e impraticável pelos crentes se utilizarem do exemplo de Judas para sustentarem sua posição. O suicídio de Judas é narrado em duas passagens neotestamentárias: “Então, Judas, atirando para o santuário as moedas de prata, retirou-se e foi enforcar-se” (Mateus 27.5); “Ora, este homem adquiriu um campo com o preço da iniquidade; e, precipitando-se, rompeu-se pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram” (Atos 1.18).

O único comentário a ser feito neste ponto é que não foi a maneira como Judas morreu que selou o seu destino eterno. Em outras palavras, o seu suicídio não foi, de modo algum, determinante para a sua condenação eterna. Não é a maneira como uma pessoa morre que determina se ela é salva ou condenada. Deve-se observar, em relação a Judas, que desde há muito ele era mencionado pelo próprio Jesus como alguém perdido, ou, o “filho da perdição”, como Jesus o chamou, em sua oração sacerdotal: “Quando eu estava com eles, guardava-os em teu nome, que me deste, e protegi-os, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura” (João 17.12). Antes mesmo de cometer suicídio, antes mesmo de trair Jesus Cristo, Judas é chamado de o “filho da perdição”. É importante observar que na oração Jesus está falando a respeito daqueles que ele recebeu do Pai: “Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra [...] É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (vv. 6,9). Há um nítido contraste entre aqueles que, pertencendo ao Pai, foram dados ao Filho, de um lado, e Judas Iscariotes, de outro. O Filho protegeu de maneira eficaz todos os que lhe foram dados pelo Pai, ao passo que Judas se perdeu, uma vez que era o filho da perdição ou, em outras palavras, não fora dado pelo Pai ao Filho.

O destino eterno de Judas foi definido, acima de tudo, pela maneira como ele esteve relacionado a Jesus Cristo. É aqui que reside o ponto fundamental em toda essa discussão. Judas foi o traidor, aquele que, com um beijo, entregou o Filho de Deus para ser morto na cruz. Judas foi condenado pelos seus pecados. John MacArthur, comentando Mateus 27.3, afirma que
nenhum homem poderia ser mais perverso do que Judas Iscariotes. Apenas outros onze homens em toda a história tiveram o relacionamento íntimo e pessoal que ele teve com o Filho de Deus encarnado. Nenhum homem já esteve mais exposto à verdade perfeita de Deus, tanto em preceito quanto em exemplo. Nenhum foi mais exposto em primeira mão ao amor, compaixão, poder, bondade, perdão e graça de Deus. Nenhum homem teve mais provas da divindade de Jesus ou mais conhecimento em primeira mão a respeito do caminho de salvação. No entanto, durante aqueles três anos indescritivelmente abençoados com Jesus, Judas não deu o primeiro passo da fé. De um modo que desafia a compreensão, Judas resistiu persistentemente e rejeitou a verdade de Deus, a graça de Deus e até mesmo o Filho de Deus.39
Judas foi condenado pelos seus pecados, pela sua incredulidade, pela sua rebeldia contra o Filho de Deus, enfim, pela maneira perversa como se portou em relação a Jesus Cristo. Judas não foi condenado por ter cometido suicídio. Podemos estar certos de que, tivesse Judas morrido de qualquer outro modo, seu destino eterno seria o mesmo: a danação eterna.

3.2.3. O pecado imperdoável

Defensores da posição de que não há nenhuma possibilidade de perdão para o pecado do suicídio não conseguem lidar satisfatoriamente com a passagem de Mateus 12.31: “Por isso, vos declaro: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada”. Como é sabido, existe grande discussão em torno do que, exatamente, significa a blasfêmia contra o Espírito Santo. Apesar disso, as duas posições comumente representadas são: 1. A blasfêmia contra o Espírito Santo é a incredulidade resoluta e final, a apostasia definitiva, mesmo com todas as razões para que se creia em Jesus como o Messias; 2. A blasfêmia contra o Espírito Santo é atribuir verbalmente a Satanás o que, comprovadamente, é uma ação do Espírito Santo.

Alguns defensores do suicídio como pecado imperdoável, negligenciando a declaração de Jesus de que “todo pecado e blasfêmia (πᾶσα ἁμαρτία) serão perdoados aos homens”, com a única exceção sendo a blasfêmia contra o Espírito Santo, acabam fazendo inimaginável: vaticinando de modo dogmático que toda e qualquer pessoa que cometa o pecado do suicídio apostatou de modo definitivo.

O que há na passagem de Mateus, tanto no seu contexto mais imediato quanto no seu contexto remoto, que permita concluir tal coisa? Trata-se de um salto hermenêutico completamente injustificado. Tudo para não se dobrar frente à força da declaração bíblica a respeito da existência de um único pecado, uma única transgressão para a qual não há possibilidade de perdão.

4. Conclusão

Acredito que está mais do que claro que aqui não há, de maneira alguma, uma apologia do suicídio ou uma forma de encorajamento a quem deseja cometer tal ato. É a convicção do autor que o suicídio é um pecado terrível. É quebra do sexto mandamento. É um crime de lesa majestade contra aquele que é o único que possui a prerrogativa de tirar a vida, o Senhor Deus.

Ainda assim, é a convicção do presente autor, fazendo uso de uma afirmação de John Frame, que “o suicídio é um pecado, mas não é imperdoável”.40  Nada há nas Sagradas Escrituras, seja de maneira expressa ou por meio de dedução lógica que permita alguém concluir que o suicídio é um pecado além de qualquer possibilidade de perdão. Ao mesmo tempo, é preciso enfatizar que as Escrituras, de maneira alguma enxergam o suicídio a partir de uma perspectiva elogiosa. É pecado. É transgressão da lei de Deus.

O que se deve compreender, portanto, é que o melhor a se fazer é simplesmente calar e deixar que o Senhor Deus, que conhece todas as coisas aja segundo o seu propósito soberano.


______________________________
1Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=p8w21qExr9I>.
2Ron Gleason. When the Unthinkable Happens: What the Bible Says about Suicide. Dallas, GA: Tolle Lege Press, 2015. Posição 179. Edição Kindle.
3Ibid. Posição 179-190. Edição Kindle.
4Ronald Nash. Questões Últimas da Vida: Uma Introdução à Filosofia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. p. 14.
5Ronald Nash. Cosmovisões em Conflito. Brasília, DF: Monergismo, 2012. p. 25.
6Norman Geisler e Peter Bocchino. Fundamentos Inabaláveis. São Paulo: Vida, 2003. p. 15.
7Ronald Nash. Questões Últimas da Vida: Uma Introdução à Filosofia. p.14.
8James W. Sire. Dando Nome ao Elefante: Cosmovisão como um Conceito. Brasília, DF: Monergismo, 2012. p. 179.
9Ibid. p. 191.
10Ronald Nash. Cosmovisões em Conflito. p. 26.
11Ibid. p. 26.
12Margaret Pabst Battin. Ending Life: Ethics and the Way We Die. Oxford, UK: Oxford University Press, 2005. p. 171.
13Ibid.
14Ibid. p. 170.
15Walter C. Kaiser Jr. O Cristão e as Questões Éticas da Atualidade. São Paulo: Vida Nova, 2016. p. 182. Deve ser observado que Walter Kaiser faz referência específica ao termo alemão Suizid, que possui correspondência direta com a palavra “suicídio” tanto em inglês como em português.
16Gary Stuart et al. Perguntas Básicas sobre Suicídio e Eutanásia: É Certo Praticá-los? São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 18.
17Ibid. p. 42.
18Josemar Bessa. Sansão, Sansão, Sansão... o que Tu Fizeste? Disponível em: <http://www.josemarbessa.com/2017/07/sansao-sansao-sansao-o-que-tu-fizeste.html?m=1>.
19François Turretini. Compêndio de Teologia Apologética. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. p. 154.
20<https://www.facebook.com/josemarbessa/posts/10208063243813948>.
21Philip Schaff. Nicene and Post-Nicene Fathers Series I: St. Augustine’s City of God and Christian Doctrine. Vol. 2. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 2002. p. 52.
22Ibid. p. 57.
23François Turretini. Compêndio de Teologia Apologética. Vol. 2. pp. 152-153.
24Ibid. p. 153.
25Ibid. p. 155.
26Margaret Pabst Battin (Ed.). The Ethics of Suicide: Historical Sources. Oxford, UK: Oxford University Press e University of Utah J. Willard Marriott Library, 2015. p. 27.
27Walter C. Kaiser Jr. O Cristão e as Questões Éticas da Atualidade. p. 185.
28Claude Mariottini. Samson’s Suicide. <https://claudemariottini.com/2014/10/17/samsons-suicide/>.
29Ibid.
30Ron Gleason. When the Unthinkable Happens: What the Bible Says about Suicide. Posição 934. Edição Kindle.
31Ibid. Posição 1027. Edição Kindle.
32O verbo hebraico traduzido como “para que me vingue” está no niphal, indicando uma ação reflexiva.
33Yael Shemesh. “Suicide in the Bible”. In: Jewish Bible Quarterly. Vol. 37. Nº 3. Jewish Bible Association, 2009. p. 159.
34Ibid.
35C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Joshua, Judges, Ruth, I&II Samuel. Vol. 2. Grand Rapids, MI: Eerdmans Publishing Company, 1991. p. 425.
36John Frame. A Doutrina da Vida Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. p. 703.
37Ron Gleason. When the Unthinkable Happens: What the Bible Says about Suicide. Posição 1038. Edição Kindle.
38Ibid. Posição 1062. Edição Kindle.
39John MacArthur. The MacArthur New Testament Commentary: Matthew 24-28. Chicago, IL: Moody Publishers, 1989. p. 225.
40John Frame. A Doutrina da Vida Cristã. p. 702.


 

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Alan Rennê Alexandrino

Alan Rennê Alexandrino

O autor está cursando o Sacrae Theologiae Magister (S.T.M.), com área de concentração em estudos históricos e teológicos e linha de pesquisa em Teologia Sistemática, no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico do Nordeste (Teresina-PI), e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo-SP). É professor de Ética Cristã na Faculdade Internacional de Teologia Reformada (FITRef). É pastor-efetivo na Igreja Presbiteriana do Cruzeiro do Anil, em São Luís-MA.

 

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