Bíblia e Exegese

O surgimento da incredulidade na nação de Israel no livro de Êxodo

30/05/2018 16:07:35

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O surgimento da incredulidade na nação de Israel no livro de Êxodo 1. Introdução

O livro de Êxodo é marcado pela aliança que Deus faz com Moisés, o qual é capacitado por Deus para liderar a libertação do povo israelita da escravidão egípcia. Embora Deus demonstre grande poder realizando maravilhas diante dos egípcios, libertando os israelitas do cativeiro, frequentemente nos deparamos com momentos no texto bíblico em que os israelitas demonstram incredulidade a Deus por meio de suas murmurações e idolatria.

O Pentateuco é permeado por essas murmurações. A murmuração está diretamente associada à ideia de incredulidade. Incredulidade é a causa da murmuração.

No livro de Êxodo, podemos identificar sete momentos de incredulidade do povo israelita. Vamos analisar cada passagem bíblica e verificar os aspectos fundamentais que acarretaram essa incredulidade, bem como a reação do Senhor em cada uma delas.

2. A incredulidade dos israelitas no livro de Êxodo

2.1. A sobrecarga de trabalho e o medo da punição


A primeira passagem onde podemos observar uma postura murmurativa por parte dos israelitas, está em Êxodo 5.15-21. Após Moisés e Arão fazerem sua primeira visita a Faraó, pedindo a libertação dos israelitas, Faraó entende que os israelitas estavam ociosos e, assim, sobrecarrega-os com mais trabalho. O versículo 21 diz:
“O Senhor os examine e os julgue! Vocês atraíram o ódio do faraó e dos seus conselheiros sobre nós, e lhes puseram nas mãos uma espada para que nos matem”.
Embora ainda não tivessem observado todas as maravilhas que Deus realizaria no Egito, é certo que Êxodo 4.29-31 relata que Arão contou aos filhos de Israel todas as palavras que o Senhor havia dito a Moisés e este fez sinais à vista do povo. O versículo 31 ainda afirma que eles creram.

Entretanto, como comenta Russell Shedd, “Esta fé não está em condições de enfrentar a primeira perseguição, nem de mostrar lealdade absoluta” (Bíblia Shedd. p. 79). Ao sobrecarregar os israelitas com mais trabalho, segundo Shedd, a ideia de libertação passou a ser desprezada pelos escravos israelitas, uma vez que ficaram desprovidos de sua única esperança. Os israelitas ficaram com medo da punição de Faraó. Em resposta a Moisés diante da aflição dos israelitas, Deus promete que agirá e que eles serão libertados. Deus diz: “Eu sou o Senhor” (6.2).

Este, porém, é apenas o início das murmurações e o primeiro indício de incredulidade por parte dos israelitas. O primeiro ponto alto de incredulidade por parte dos israelitas se encontra mesmo na próxima passagem.

2.2. O Mar vermelho e o medo de morrer na batalha

Após Deus realizar maravilhas diante dos egípcios e dos israelitas, Faraó finalmente decide libertar o povo. No entanto, o capítulo 14 narra que Faraó se retrata e decide perseguir os israelitas, os quais estão à beira do Mar Vermelho. Diante da situação, os israelitas reclamam, dizendo que teria sido melhor permanecer no Egito a morrer em batalha no deserto (v. 11-12). Moisés pede para que o povo se aquiete, pois o Senhor irá pelejar por eles. Deus responde, dizendo que Ele é o Senhor da peleja (v.14).

Arthur W. Pink comenta:
“Quão absurdas são as razões da incredulidade! Se a morte sob as mãos dos egípcios fosse o destino deles, por que Jeová os teria libertado da terra da escravidão? O fato de Ele tê-los libertado do Egito foi uma evidência suficiente de que Ele não iria permitir que eles fossem derrotados por seus inimigos. Além disso, o Senhor havia prometido que eles deveriam adorá-lo no monte Horebe (3:12). Como, então, eles pereceriam no deserto? Mas quando a fé não é exercida, as promessas de Deus não trazem conforto e não garantem tranquilidade ao coração. Israel havia sido trazido ao seu predicamento presente pelo próprio Deus. Foi a nuvem que os levou ao lugar onde eles estavam acampados. Essa é uma importante verdade para nós nos atermos. Não devemos esperar que o caminho de fé seja fácil e suave. A fé deve ser colocada à prova, severamente testada. Mas, por quê? Para que possamos conhecer a suficiência de nosso Deus! Para que provemos através das experiências que Ele é capaz de suprir cada necessidade nossa (Fp 4:19), providenciar um escape para cada tentação” (1Co 10:13) e fazer por nós infinita e abundantemente mais do que aquilo que pedimos ou pensamos” (Gleanings in Exodus. p. 109. Tradução nossa).
Após atravessarem o mar, o v. 31 narra que mais uma vez o povo confia no Senhor e em Moisés.

2.3. O medo de morrer de sede e fome

Três dias após atravessarem o Mar Vermelho, Êxodo 15.22-27 relata que os israelitas novamente demonstraram sua incredulidade. Ao chegarem a Mara, murmuraram porque as águas eram amargas. Havia um sentimento muito forte de que haviam sido abandonados no deserto para morrerem de sede.

Sob a orientação de Deus, Moisés lança uma árvore nas águas e elas se tornam doces (v. 25). Em resposta, Deus diz: “Eu sou o Senhor que te sara” (v. 26).1

Todavia, não demorou muito tempo para que o povo novamente voltasse a murmurar. O capítulo 16 relata que os israelitas começaram a reclamar no deserto de Sim por falta de comida. Desejaram mais uma vez estar no Egito (v. 3). Mais uma vez o amor e a misericórdia de Deus se manifestam e Deus provê o alimento através do maná diário e das codornizes. Em promessa de que Deus iria sustentá-los, Deus diz: “Sabereis que eu sou o Senhor” (v. 12).

O Senhor, porém, havia dado uma ordem para que não deixassem o maná para o dia seguinte. O versículo 20 nos diz que os israelitas desobedeceram a essa ordem, o que é um indicativo de que talvez não estivessem confiando que o Senhor proveria o alimento no dia seguinte.

Não obstante, o Senhor havia estabelecido que o sábado deveria ser guardado e, portanto, Deus não enviaria o maná nesse dia. Os israelitas deveriam colher pão em dobro no sexto dia para que tivessem o que comer no sábado (v. 22). Desobedeceram mais uma vez e alguns foram ao campo no sétimo dia para colher o pão (v. 27).

Em Êxodo 17.1-7, a murmuração pela falta de água se repete. Em Refidim, reclamam a Moisés que não deveriam ter saído do Egito se soubessem que iriam morrer de sede no deserto (v. 3). Mais uma vez, a paciência e a misericórdia do Senhor se manifestam. Deus orienta Moisés a tomar o seu bordão e bater na rocha em Horebe. Moisés assim o faz e sai água da rocha.

Por conta disso, aquele lugar foi chamado de “Massá”, que quer dizer “tentação” e “Meribá”, que quer dizer “contenda”. Isso por que os filhos de Israel haviam tentado e criado contenda com o Senhor, dizendo: “Está o Senhor no meio de nós ou não?” (v. 7). A reação de Deus ao prover água é demonstrar que Ele estava entre o povo (v. 6).

2.4. O bezerro de ouro

Apesar de todas as murmurações e incredulidade ao longo do livro de Êxodo, nada se compara ao relato do capítulo 32. A fabricação do bezerro de ouro pelo povo israelita enquanto Moisés estava no monte Horebe recebendo as leis do Senhor, é o ápice da incredulidade e de afronta a Javé. No capítulo 20, vemos que o Senhor já havia estabelecido dez mandamentos aos filhos de Israel e, dentre eles, constava a proibição à idolatria (20.1-3). No versículo 23, mais uma vez Javé assevera: “Não fareis deuses de prata ao lado de mim, nem deuses de ouro fareis para vós outros”. A proibição era clara.

No entanto, uma vez que Moisés tardava a descer do monte, os filhos de Israel, com a ajuda de Arão, decidiram fabricar um bezerro de ouro e adoraram-no e sacrificaram-lhe.

Esse comportamento idólatra revela mais uma vez a incredulidade de Israel ao Senhor. Em primeiro lugar, desconfiavam que seu líder, Moisés, não estivesse mais vivo e também que Javé havia-lhes abandonado.

Russell Shedd comenta:
“O hábito de idolatria aprendido no Egito era tão forte, que poucos dias sem ouvir a voz do profeta e líder dinâmico, eram suficientes para o povo voltar à lama idolátrica (2Pe 2.20-22), uma descrição dos que voltam à vida mundana, após terem conhecido a Jesus Cristo” (Ob. cit. p. 121).
Sem dúvida, o sentimento de nostalgia do Egito que permeia todas as murmurações dos israelitas mais uma vez é evidenciado aqui. Deus havia libertado os israelitas da escravidão, mas ainda traziam consigo as correntes que os prendiam. Como já disse Jonas Madureira, “Quebre os grilhões de uma cela. Mas não se assuste se o prisioneiro não sair. Talvez a cela seja absurdamente confortável”.

O Senhor havia se revelado de maneira maravilhosa aos israelitas, libertando-os da escravidão no Egito e sustentando-os no deserto. Qualquer adoração a outro deus, portanto, seria uma afronta direta ao único e verdadeiro Deus.

Em reação a esta afronta, Deus deseja consumir a todos e fazer de Moisés uma grande nação. Moisés, porém, intercede em favor dos israelitas e o Senhor se arrepende do mal que dissera havia de fazer ao povo (v. 11-14). Então, todos aqueles que eram do Senhor foram poupados e os demais mortos por causa da incredulidade e idolatria (v. 25-29).

3. Reflexões

De acordo com T. Desmond Alexander, “Êxodo é essencialmente um livro sobre o conhecimento de Deus por meio da experiência pessoal” (Do paraíso à terra prometida. p. 87). Isto, de fato, é notório. Os episódios de incredulidade e murmuração são marcados pelo comportamento misericordioso, gracioso e amoroso do Senhor aos israelitas. Através da sustentação e provisão de Javé em cada dificuldade, os israelitas passam a conhecer o Seu caráter. Em cada situação, Deus relembra e revela mais do Seu caráter. O nome de Deus está intimamente ligado a isso. Como vimos, nos momentos de murmuração Deus diz: “Eu sou o Senhor”, “Eu sou o Senhor que peleja”, “Eu sou o Senhor que te sara”, “Eu sou o Senhor que está no meio de vós”.

Sem dúvida, o conhecimento de Deus é um dos temas marcantes no livro de Êxodo. Esse conhecimento por meio da revelação do caráter de Deus em diferentes circunstâncias, que deveria bastar para garantir a fidelidade do povo, no entanto, não lhes foi suficiente. É interessante notar como o povo quedou-se incrédulo e múrmuro mesmo diante das promessas de Deus e diante daquilo que Ele já havia realizado. O conhecimento de Deus deveria ter impedido, inclusive, a idolatria ao bezerro de ouro.

Como afirma T. Desmond Alexander:
“Enquanto o tabernáculo, com suas guarnições de ouro, retratava o Senhor como personalidade real, o bezerro de ouro, em acentuado contraste, representava-o como mero animal. Embora o povo lhe tenha oferecido sacrifícios, a adoração do bezerro degradava aquele que os tinha libertado da escravidão no Egito. A adoração, para ser verdadeira, deve ser baseada na percepção correta de Deus. O que o livro de Êxodo enfatiza é a importância de conhecer Deus como ele realmente é, e não como imaginamos que ele seja” (Ob. cit. p. 94).
Essa incredulidade, essa falta de confiança por parte dos israelitas em relação ao caráter de Deus que era revelado nas adversidades é sintomático. Por não confiarem em Deus quando enfrentavam adversidades, os israelitas sentiam dúvida e medo. Dúvida e medo de punição, de morrer na batalha, de morrer de sede e fome, de terem sido abandonados. A raiz dessa dúvida e medo é a incredulidade.

O salmista Asafe explicou bem esse problema no Salmo 78:

Esqueceram o que ele tinha feito, as maravilhas que lhes havia mostrado”.

“Mas contra ele continuaram a pecar, revoltando-se no deserto contra o Altíssimo”.

“O Senhor os ouviu e enfureceu-se; atacou Jacó com fogo, e sua ira levantou-se contra Israel, pois eles não creram em Deus nem confiaram no seu poder salvador”.

“A despeito disso tudo, continuaram pecando; não creram nos seus prodígios”. (v. 11; 17; 21-22; 32). (Grifo nosso).

Como cristãos, no entanto, não estamos isentos dessas murmurações e incredulidade. Em momentos de adversidade, precisamos olhar para o passado e ver o que Deus já realizou por nós. Como escreve o apóstolo Paulo aos coríntios, fazendo referência à incredulidade dos israelitas,

“Não devemos pôr o Senhor à prova, como alguns deles fizeram — e foram mortos por serpentes. E não se queixem, como alguns deles se queixaram — e foram mortos pelo anjo destruidor” (1Co 10.9-10).

4. Bibliografia

ALEXANDER, T. Desmond. Do paraíso à terra prometida – uma introdução aos temas principais do pentateuco. Ed. Shedd: São Paulo, 2010.
PINK, Arthur W. Gleanings in Exodus. Ed. Moody Press: Chicago, 1982.
SHEDD, Russell. Bíblia Shedd. Ed. Vida Nova: São Paulo, 1997.
WILSON, Ralph F. Grumbling, conflict and delegation (Exodus 15-18). Artigo online em: http://www.jesuswalk.com/moses/4_grumbling.htm.

 

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  • AUTOR

Jonathan Silveira

Jonathan Silveira

Graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. É membro na Igreja Batista da Palavra, em São Paulo, trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é fundador e editor do site Tuporém.